sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Vamos falar sobre amamentação?



Acho que, no Brasil, a maioria das mães deseja amamentar seu filho. Talvez não da forma como a Organização Mundial de Saúde recomenda (amamentação exclusiva até 6 meses, como principal alimento até 1 ano e como suplementar PELO MENOS até 2 anos de idade), mas querem amamentar. E acham que a amamentação é algo simples, belo e intuitivo: põe o bebê no peito, ele suga. Pronto, resolvido.

Manas, não é bem assim que funciona...! Primeiro que, quando o bebê nasce, você não ganha automaticamente peitos fartos de leite; o leite só vai descer mesmo lá pelo terceiro dia após o parto. Antes disso, temos o colostro: ele é bem líquido, pouquinho, amarelado quase transparente. O colostro deve ser dado ao bebê o mais rapidamente possível após o nascimento do bebê, pois ele é repleto de anticorpos que protegem a criança, transmitindo para o bebê informações sobre os micro-organismos com os quais a mãe teve em contato ao longo da vida. Além disso, é rico em proteínas, água e gorduras essenciais, bem adaptado às necessidades do recém-nascido. Esse colostro é o alimento que os bebês precisam ao nascer, sem tirar nem pôr. Não é necessário oferecer complemento porque o leite ainda não veio, é só deixar bastante o bebê no seio para mamar o colostro - o que estimula o leite a descer. Em muitos hospitais, é oferecido o complemento para os recém-nascidos. Mas, futuras mamães, o leite é produzido por estímulo: quanto menos o bebê sugar, mais o leite demora para descer. E se ele estiver de barriguinha mega cheia de complemento, não vai querer sugar. Entenderam o círculo vicioso que o complemento gera? E sempre vai ter alguém que vai dizer que o leite é fraco, que o bebê está com fome, etc. Mas já pararam para pensar que um bebê que acabou de sair do útero tem muitos, muitos motivos para chorar além da fome?

O segundo ponto de dificuldade em estabelecer a amamentação é o raio da pega. A pega é a base de uma amamentação tranquila. Se o bebê pega corretamente o seio, consegue mamar tudo o que precisa e não machuca a mãe. Se a pega não estiver correta, pode mamar pouco, engolir muito ar, machucar o seio materno. Só que (pode acreditar!) o bebê não nasce sabendo pegar o seio. Mãe e bebê precisam aprender a fazer isso juntos! Pode ser que, principalmente no início, você tenha que retirar e colocar o seio várias vezes até que seu bebê acerte a pega, e que isso se repita a cada vez que ele for mamar. É importante essa correção, para que você não se machuque, a dor ao amamentar não é normal! Para a pega ser feita corretamente, é preciso que o bebê abocanhe boa parte da aréola, e não apenas o bico. A boquinha tem que ficar bem aberta. https://www.youtube.com/watch?v=scsAp3CaKfA
Se estiver doendo, provavelmente a pega está errada. Peça ajuda! Muitas mães só chegam ao banco de leite quando o mamilo já está rachado, muito ferido, quando ela já não aguenta mais de dor. Não espere chegar a esse ponto! Se estiver difícil, vá logo a um banco de leite com seu bebê, que você será super bem orientada.


O terceiro ponto complicado é a apojadura, ou seja, quando o leite desce. Porque manas, quando o leite desce, ele DEEEEEESCE.... kkkkkk! Seu organismo ainda não sabe o quanto seu bebê irá mamar, então ele se prepara para um super bebê mega esganado que vai querer mamar litros a cada minuto! As mamas ficam muito cheias e duras, e se você não souber lidar com esse momento, pode acabar tendo leite empedrado ou até mesmo uma mastite. Vamos lá: se o seio estiver muito cheio e muito duro, o bebê não consegue pegar direito. Então é bom massagear o seio e ordenhar um pouco de leite (no momento: vamos nos sentir vaquinhas) e só depois oferecer ao bebê. https://www.youtube.com/watch?v=gW7jqzdX1hc

Aos poucos, a produção de leite entra em um equilíbrio, os seios não enchem tanto, e aí vem o quarto ponto difícil na amamentação: a crise do "não tenho leite". Tem sim! Você só está produzindo leite de forma adequada ao seu bebê, não está mais jorrando leite do peito, mas pode crer que, quando ele mama, sai leite, se não ele abriria o berreiro. E se mesmo assim ficar cismada, lembre-se de que quanto mais o bebê mama, mais leite a mãe produz, então coloque-o para mamar com mais frequência.

E o quinto momento difícil da amamentação: seguir amamentando! Porque olhe, minha gente... É tanto palpite... É tanta gente querendo dizer quando, como, onde ou que tanto esse bebê deve mamar... Lembre-se das recomendações da Organização Mundial de Saúde: livre demanda, amamentação exclusiva até 6 meses e seguir amamentando por 2 anos ou mais. Qualquer pitaco diferente disso pode - e deve - ser ignorado. Mas atenção: eu disse que os pitacos devem ser ignorados, não aquilo que a sua intuição te diz. Cada mãe sabe exatamente o momento de desmamar sua cria. É o momento do "não dá mais". "Não aguento mais dar peito de madrugada!" É quando você tira a mamada noturna. "Não aguento mais dar o peito o tempo todo!" É quando você interrompe a livre demanda. De alguma forma, a gente sabe.


Por fim, lembrem-se de que, principalmente no início, amamentar exige concentração. Procure um lugar tranquilo, em silêncio. Olhe bem nos olhos do bebê, tenha paciência com esse momento. Se estiverem com dificuldades, procure antes de oferecer o seio colocar seu filho pele a pele com você, e ir guiando para o seio aos poucos. Desejo que tenham uma linda lua-de-leite!!!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Intervenções de parto

Quais são as principais intervenções de parto que as mulheres sofrem?
Gente, esse post é apenas um resumo bem resumidinho mesmo das principais intervenções que as mulheres sofrem quando decidem ter um parto normal. Vale a pena pesquisar e aprofundar um pouquinho em cada uma delas, para que você seja capaz de entender exatamente o que cada uma dessas intervenções faz e, na hora do trabalho de parto, ser capaz de escolher conscientemente o que quer que seja feito ou não.

1.       Administração de ocitocina sintética. A ocitocina sintética é utilizada para induzir ou acelerar o trabalho de parto. A principal consequência negativa é que as contrações vêm muito mais frequentes e doloridas, o que aumenta a chance de a mãe desistir do parto normal e de o bebê entrar em sofrimento fetal. Para ler mais e entender melhor, clique aqui: http://douladebrasilia.blogspot.com.br/2015/08/os-hormonios-do-parto.html
2.       Analgesia. A princípio, parece uma ideia maravilhosa. Parir uma criança sem sentir dor, quem não quer? E olha que os bons anestesistas conseguem aplicar uma dose tão pequena que a gente ainda é capaz de sentir as contrações, mas com bem menos dor. O problema é que a gente pode até sentir as contrações, mas não sente os “puxos”, que são aquela vontade doida de fazer força no período expulsivo, uma força que você faz naturalmente porque não consegue deixar de fazê-la. Com analgesia, você não sabe quando com como fazer força, e aí o expulsivo tende a ser mais longo e difícil, a mulher fica exausta porque faz muita força de modo não efetivo para expulsão do bebê. Isso acaba levando às intervenções 3 e 4.
3.       Kristeller. Uma das maiores atrocidades do nosso sistema obstétrico. É quando o médico ou enfermeira “sobem” em cima da barriga da mulher, empurrando o bebê para que ele desça. Todas as evidências científicas condenam o método e na maioria dos partos ele não é usado, mas volta e meia ouço o relato de um profissional desatualizado que aplicou esse método desastrado. Gente, o bebê tem seu próprio processo no expulsivo. Ele vai, aos pouquinhos, achando o caminho dele, descendo, encaixando. Quando você empurra ele de uma vez, isso vai certamente machucar tanto mãe quanto bebê, aumentando gravemente os riscos de hemorragia e lacerações graves!
4.       Episiotomia. Não há qualquer evidência científica de que a episiotomia (corte na vagina da mulher) diminua o tempo do período expulsivo, e é essa a desculpa com que ela é usada. A maioria dos médicos usa episio de rotina! Para ler mais e entender melhor, clique aqui: http://douladebrasilia.blogspot.com.br/2015/08/e-episiotomia.html

5.       Puxar o cordão para a placenta sair logo. A placenta deve ser parida após o bebê nascer. A mulher volta a sentir algumas contrações e expulsa a placenta que, na maioria dos casos, sai inteira e linda. Algo que ajuda muito nesse processo é colocar o bebê no seio para mamar, mas como na maioria dos hospitais, principalmente os particulares, ainda se separa logo o bebê da mãe, perde-se esse momento tão especial. O problema é que puxar a placenta aumenta os riscos de ficar algum pedacinho dela lá dentro, de ela “quebrar”, e aí os riscos de hemorragia e infecção são bem maiores.

E a episiotomia?

Episiotomia é uma intervenção cirúrgica feita no parto vaginal, em que um corte é feito entre a vagina e o ânus da mulher, a fim de facilitar a saída do bebê. Outra vantagem da episiotomia seria a de prevenir lacerações espontâneas, preservando a saúde genital. A sutura ("costura") da episiotomia é chamada de episiorrafia. Além dos pontos necessários para fechar a episio, alguns obstetras dão também o famoso "ponto do marido", um ponto a mais do que o necessário, para deixar a mulher mais 'apertada', como se tivesse ficado virgem de novo.

Por que a episiotomia é desnecessária?

1. É possível preparar o períneo para que não haja laceração. Exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico e massagens no períneo aumentam a força e a elasticidade da vagina.
2. A simples mudança na posição do expulsivo já aumenta significativamente o canal de parto. Se a mulher ficar de cócoras, o canal vaginal abre 30% em relação à posição deitada de barriga pra cima.
3. Lacerações graves geralmente são causadas não pela saída do bebê em si, mas por outras intervenções de parto (analgesia, puxos dirigidos e a abominável manobra de kristeller, por exemplo).
4. Em um parto sem intervenções, mesmo que haja uma laceração, ela dificilmente vai atingir a camada muscular, a qual é cortada na episio.
5. Mesmo que haja uma laceração, ela vai seguir o desenho natural do tecido, em uma sutura mais “chatinha” de fazer do que o traço reto de uma episio, mas que tem recuperação bem mais rápida.
6. A verdade é que a episiotomia não diminui significativamente o tempo do expulsivo e não impede sequelas para o assoalho pélvico.
7. A episiotomia aumenta a perda de sangue no parto.
8. A episiotomia aumenta a chance de dores pós parto.
9. Os supostos benefícios da episio não compensam seus riscos.
10. O “ponto do marido” costuma gerar como consequência muita dor e incômodo nas primeiras relações sexuais, e não é raro que tenha que ser corrigido cirurgicamente para que a mulher possa voltar a ter relações sexuais.

A única coisa mais grave do que milhões de mulheres terem suas vaginas cortadas desnecessariamente no parto é o fato de elas terem suas vaginas cortadas sem sequer serem avisadas disso! Muitos médicos sequer registram no prontuário que a episiotomia foi realizada. Cortam sem avisar, suturam sem avisar, dão o “ponto do marido” sem avisar. Daí a importância de discutir esse assunto com o obstetra antes de entrar em trabalho de parto, de registrar no plano de parto o desejo de não ser submetida a episiotomia e de, caso ela seja necessária por algum motivo, que o médico aguarde o seu consentimento.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Nascimento do João! =]


E porque coração de grávida tem que ser muito forte e estar sempre cheio de afeto, quando cheguei em casa ontem, da cesariana da Raquel (post anterior) lembrei que a Mônica tinha consulta às 9h e mandei mensagem perguntando como tinha sido. Ela estava completamente zonza com o resultado de seu ultrassom: 2,4 de líquido amniótico (repetido três vezes pela médica e revisado pelo chefe da médica) e constatação de baixa vitalidade fetal.
A Mônica, dentre as minhas doulandas, foi uma das mais presentes e mais bem preparadas para o parto normal. Por ter uma cesárea anterior que foi bem traumática física e psicologicamente, ela estava firmemente decidida a entrar em trabalho de parto, leu muito, frequentou várias rodas e estava pronta para peitar todo um sistema obstétrico para conseguir entrar em trabalho de parto e parir. Ela estava firmemente decidida a não se deixar enganar e cair em uma cesárea sem necessidade.
Só que aí está o detalhe, né?! Existem situações em que só podemos agradecer ao universo a existência dos médicos e da cesariana, e essa era uma dessas. A indicação de cirurgia era correta e real. Claro que de início foi bem difícil para a Mônica - e para mim, confesso) lidar com a frustração de um plano tão bem delimitado. Trabalhei bastante em mim primeiro, depois fui para a casa dela. Lá, fiz uma massagem e conversamos bem, sobre como planejamos o parto normal exatamente pensando no melhor para o João, e que se o melhor para o João não é mais o parto normal, temos que aceitar com alegria. Orientei a ela que conversasse com o anestesia sobre as reações ruins que ela teve da última vez.
Como a irmã dela é enfermeira e o marido já ia acompanhá-la, achei por bem não ir ao hospital tentar entrar, e deixar esse privilégio para a irmã dela, que acompanhou tudo e me mandou fotos. No horário da cirurgia, convoquei todas as doulandas para orarmos e mandarmos vibrações positivas para que a Mônica não se sentisse triste nem sozinha após a cesariana, na recuperação. E dormi tranquila sabendo que mãe e bebê estavam ótimos e que João era lindo!
Hoje, fui visitá-la. Estava bem, bonita, amamentando, tranquila. Fiquei muito, muito orgulhosa da Mônica. E ainda ganhei presentes! O melhor deles foi uma foto dela grávida, com os dizeres: "Obrigada por fazer parte da luta pelo empoderamento e protagonismo da mulher no parto". Fiquei profundamente emocionada e grata por ter feito parte desse processo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Nascimento de Alice, filha de Raquel, neta de Júlia

Raquel me mandou mensagem na segunda-feira cedinho, dizendo que estava com contrações desde 2h da manhã, com dores fortes, mas suportáveis, e sem perda de líquido. Ela mora em Santo Antônio do Descoberto e eu em Águas Claras, mas fiquei preocupada por ser a primeira vez que ela entrava em trabalho de parto, quis tranquilizar a família e ensinar a ela como lidar com as contrações. Então tomei um banho, café da manhã, deixei meu filho na escola e fui encontrá-la.
Chegando lá, a casa estava cheia. Marido, duas irmãs, sobrinha, logo chegou a mãe também. Conversei com ela, acompanhei algumas contrações, ensinei aos acompanhantes como aliviar a dor, tranquilizei a família. Vi que as contrações estavam bem irregulares, então deixei Raquel nas boas mãos da família e fui buscar meu filho, almoçar e descansar um pouco.
Voltei para a casa da Raquel lá pelas 15h. As contrações continuavam irregulares e a casa continuava cheia. As contrações estavam bem mais doloridas, então fiz bastante massagem para aliviar e, quando ela estava mais tranquila, saímos para caminhar. Durante toda a caminhada, com direito a parada para agachamentos no parquinho, as contrações param totalmente. Quando voltamos para casa e o corpo dela esfriou, elas começaram a vir fortes e entrando em um ritmo de uma a cada 6, 7 minutos, mais doloridas. Achei que o trabalho de parto fosse engrenar ali, mas elas perderam o ritmo.
Já eram umas 19h quando chamei Raquel e o marido no quarto, apaguei a luz, coloquei uma música e deixei os dois namorando e ela com a missão de rebolar e agachar pra ver se as contrações engrenavam. Ela logo se queixou de cansaço e sono, então falei para ela deitar e descansar, e tive a sensação de que não seria aquele o dia do nascimento da Alice. Ela foi deitar, mas não ficou meia hora deitada e foi pro banho. No meu entendimento, era hora de ela descansar e poupar energia para o parto, sossegar. Mas a família estava começando a ficar visivelmente tensa e com medo de algo estar errado. Reuni todos na sala para explicar que ela não estava ainda em trabalho de parto ativo, que eram apenas os pródromos, e que aquele estado podia durar muitos dias. Orientei a, caso eles se sentissem inseguros, que fossem ao posto de Santo Antônio mesmo para que o médico ouvisse os batimentos cardíacos do bebê e fui para casa descansar.
Pouco depois, ela me mandou mensagem dizendo que estava indo para o Hospital da Samambaia. Aí começou o circo de horrores... No hospital da Samambaia, não queriam atendê-la porque o pré-natal tinha sido eito na Ceilândia. Insisti muito e eles a avaliaram. Ela estava cm 1cm de dilatação apenas. Ela ficou desesperada, mesmo eu explicando que no primeiro parto a dilatação demora mais porque primeiro o colo do útero tem que apagar para depois dilatar. A madrugada em claro e a falta de sono durante o dia começaram a pesar. Eram cerca de 23h quando ela decidiu ir para o Hospital de Ceilândia, para onde ela não queria ir, mas concluiu que seria a única opção. Falei que seria melhor ela ir para casa e esperar pelo menos até a manhã seguinte, descansar, mas ela estava mesmo muito nervosa e decidiu tentar ser atendida no HRC e pedir a cesárea, que imaginei que seria feita por ela já estar com 41+3 semanas.
No Hospital da Ceilândia, um daqueles espécimes de "profissional" que faz a gente temer pelo futuro dos seres humanos. Um médico tosquíssimo, que não deixou ela entrar acompanhada, que fez um toque brutal dizendo "Tava com 1 cm? Peraí! (forçando a abertura na marra) Agora tá com três!". Ela gritou de dor com o 'toque' cruel, e ouviu "Cala essa boca! Levanta da maca e senta naquela cadeira! Rápido!". O resto de tranquilidade e sanidade que a Raquel tinha a abandonou nesse momento e ela chorava muito. Resolveu que naquele hospital, com aquele médico, ela não ficaria mais e foi para o HMIB. Lá, o médico queria induzir o parto. Já estava quase amanhecendo, 28 horas com contrações e segunda noite sem dormir, ela implorou por uma cesariana, mas não a ouviram, dizendo que ela "ainda aguentava muito".
Ela decidiu, então, fazer um sacrifício nada pequeno e pagar pela realização de uma cesariana em um hospital particular. Foi, então, internada e, às 9h25min, nasceu Alice, com 51cm e 3.865kg. Forte, gordinha, linda demais da conta. Mãe e filha passam bem, Raquel provavelmente dormirá o resto do dia de tão exausta.
E a doula aqui, vai passar o dia digerindo, sabe?! Tentando digerir esse sistema que maltrata, que humilha, que rebaixa a mulher num momento tão importante. Tentando entender o medo que as pessoas têm do parto e a necessidade de estar em um hospital. Tentando absorver a quantidade de procedimentos cruéis e desnecessários que é feita num recém-nascido. Tentando compreender porque esses procedimentos não podem ser feitos ao lado da mãe, por que essa criança é levada para outra sala. Tentando aceitar que, por risco de infecção, assim que o bebê nasce a mulher não pode mais ter um acompanhante ao seu lado. Tentando crer que toda vez que eu, como doula, quiser ver um bebê de doulanda minha nascer vou ter que implorar e aceitar pacificamente ser deixada de lado na hora que aquela mulher mais precisa do meu apoio. A doula está aqui de estômago embrulhado, percebendo claramente como são duros os limites de sua profissão.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Nascimento de Mallu

Conheci a Ludy pelo facebook, já beeeem no finalzinho da gravidez, justamente procurando respostas sobre os sinais do trabalho de parto. Ontem, por volta das 21h, ela me avisou que estava com dores e sangrando um pouco. Chegou ao hospital de Sobradinho com 4cm de dilatação e já foi internada. O marido, Paulo, tentou, ela tentou, mas não teve jeito: eles não deixam a doula entrar, a não ser que o acompanhante saia. Então tive que me contentar em doular virtualmente, bendito whatsapp! Gravei alguns áudios de encorajamento pra ela, explicando como lidar com as contrações, e fui me comunicando com ele, tirando as dúvidas e ensinando o que ele poderia fazer para amenizar as dores dela. Às 5:50 mensagem dele me contando que ela havia entrado na partolândia (que eu expliquei direitinho pra ele o que era antes). Às 6:30 ele parou de responder ao celular. Às 6:54, recebi a mensagem da alegria, dizendo que a pequena e linda Mallu (olha essa boquinha, gente! Parece que passaram batom!) já estava fora da barriga, e que ela e a super mamãe Ludy estavam bem.
Parabéns, Ludy! Parabéns, Paulo! Tenho certeza de que, depois desse parto, a conexão entre vocês está ainda mais forte, e que Mallu terá pais maravilhosos! Boa lua-de-leite, e contem comigo para o que precisarem!

domingo, 9 de agosto de 2015

Placenta e cordão umbilical

A placenta é um órgão que só existe durante a gravidez. Ela serve principalmente para nutrir o bebê no útero – os nutrientes chegam até ele pelo cordão umbilical-, mas também para aconchega-lo dentro do útero (e protegê-lo de impactos) e para liberar alguns hormônios essenciais durante a gravidez e o parto. Ela não nasce com o corpo da mulher, mas nasce nesse corpo durante a gestação  e não pertence a ele, já que após o nascimento a placenta – já tendo cumprido a sua missão – vai embora. Ela é a protetora, a mantenedora , a cuidadora do bebê durante a gravidez, e quando esse bebê nasce ela também não o acompanha, pois agora ele já pode ser protegido, mantido e cuidado pela mãe.



Quando o bebê nasce, a placenta não para imediatamente de alimentar e nutrir o bebê. Se logo após o nascimento você reparar no cordão, vai ver que ainda há pulso, sangue correndo por ele. Isso porque o nascimento é uma transição: o bebê recebia oxigênio e nutrientes pelo cordão e vai passar a respirar ar e receber o alimento do leite materno. Se o cordão não for cortado logo após o nascimento, essa transição acontecerá de modo suave – aos poucos o bebê para de receber oxigênio da placenta e começa a respirar, ou seja, aprende a respirar tranquilamente; se ele é cortado assim que o bebê nasce, a respiração ocorre de forma muito mais brusca e dolorida. Só que esse “restinho” de sangue que o bebê recebe se o cordão não é clampeado imediatamente faz MUITA diferença: garante um suprimento de ferro e reduz muito o risco de o bebê ter anemia – inclusive na vida adulta . O cordão pode pulsar durante vários minutos (há relatos de cordão que seguiu pulsando por 40 minutos após o nascimento do bebê), e eu só posso concluir que ele pulsa enquanto o bebê ainda precisa. Vale lembrar que o cordão costuma ter tamanho suficiente para que o bebê vá para o colo da mãe após o nascimento. É bom questionar as razões dessa pressa em cortar o cordão, se deixá-lo pulsar não traz nenhum malefício para a mãe.




Então o bebê nasce, é levado diretamente para o colo da mãe e começa a sugar o seio; o cordão não foi clampeado e a criança ainda está ligada à placenta e recebendo nutrientes dela enquanto for necessário. Essa secção estimula o útero a se contrair e a mãe a produzir ocitocina, o que faz com que a placenta seja expulsa naturalmente. A expulsão natural da placenta diminui os riscos de hemorragia ou de ficarem pedaços da placenta para trás, o que pode causar infecção. Não se deve, portanto, puxar a placenta, mas sim esperar que ela saia naturalmente.



Após o parto, nos hospitais, a placenta costuma ser descartada sem que a mulher sequer a veja. Muitas mulheres não querem mesmo vê-la, naquela coisa de que tudo que sai do nosso corpo é sujo e é nojento. Mas quando você parir, lembre-se de que aquele órgão foi o responsável por manter seu filho vivo dentro de você, que ele foi criado e viveu apenas para isso. Que tal levá-la com você após o parto, enterrá-la e no local plantar uma árvore? Ela servirá para nutrir uma nova vida, que nascerá na mesma época do seu filho. Sempre que vocês olharem para essa árvore, poderão se lembrar da experiência mágica e transformadora que foi, para ambos, a gravidez e o nascimento.