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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Muitas mulheres superestimam sua capacidade de lutar contra o sistema. Eu sempre digo que parir nesse país é uma guerra, e infelizmente muitas mulheres só entendem a dimensão do que eu digo após se frustrarem com o nascimento do bebê.
O primeiro inimigo a ser derrotado é o médico do convênio. Se você acha que o seu médico do convênio é especial e diferente de todos os outros, peça para ver os números dele: no último ano, quantas cesarianas e quantos partos normais? Porque meninas, o médico do convênio não é um vilão que gargalha nas suas costas enquanto marca a cesariana, mas, de uma forma geral, eles perderam o hábito de acompanhar partos e de não intervir, a não ser que haja uma necessidade real. Então você vai chegar ao final da gravidez, super sensível, super ansiosa, tendo que lidar com seus próprios medos que já não são poucos, e você vai ter um médico procurando “pelo em cabeça de ovo”, porque ele também está com medo e jamais vai admitir isso. Vai te mandar fazer 500 ultrassonografias, vai se mostrar mega preocupado com aquela pressão 13x9, e isso vai minando a sua confiança de que é capaz de parir. Não é por mal: o problema é que a maioria dos médicos de convênio está acostumada a fazer cesáreas eletivas, só isso. Ah, Elisa, mas uma equipe humanizada é muito, muito caro... Mas caro do que eu sou capaz de pagar... Eu te entendo, eu fui uma dessas também. Dessas e de tantas outras que eu conheço que achou a equipe humanizada muito cara para um primeiro parto e pagou para o segundo, por perceber só tarde demais o quanto é importante. Mas se de todo você não tem condições de pagar, lute contra um outro inimigo: o medo do SUS. Porque o pré-natal do SUS dá de 10 no de qualquer médico de convênio, e no SUS eles não te empurram cesarianas desnecessárias. A partir disso, basta se informar sobre os melhores hospitais e como fazer para conseguir atendimento neles (olha a doula aqui, kkkkk).
O segundo inimigo a ser derrotado é a família. Dói, né?! Porque são as pessoas que mais te amam, as pessoas que você mais ama, a opinião deles tem um peso muito grande. E eles não entendem de parto, mas se preocupam muito com você e com sua saúde. E o senso comum diz que a cesariana é mais segura do que o parto normal, embora todos os estudos e estatísticas provem justamente o contrário. Na cabeça da sua família, é arriscado esperar além das 40 semanas. Na cabeça da sua família, você é muito fraca para suportar as dores do parto. Na cabeça da sua família, você é muito frágil para tudo isso. Novamente, não é por mal. É amor, só amor. Mas sua autoconfiança vai sendo minada, e de tanto ouvir as pessoas que você ama dizerem que você está errada, você começa a ter medo de estar exagerando no desejo por um parto normal.
O terceiro inimigo são as informações equivocadas. Principalmente relatos de partos normais mal sucedidos, geralmente contados pelas metades. O bebê que ficou entalado e tiveram que cortar a cabeça, o bebê que passou da hora e morreu na barriga, a moça do parto humanizado que morreu porque insistiu em ter bebê em casa... Nossa, quantos filmes de terror, quantos fantasmas, quantas histórias horríveis as pessoas adoram contar para as grávidas... E por mais que conscientemente você saiba que tudo isso é um absurdo sem tamanho e que com certeza a história contada não foi bem daquele jeito na realidade, esses absurdos ficam ali no seu subconsciente, virando medo de parir.
O quarto inimigo é a ilusão do parto sem dor. Quando uma mulher está buscando um parto natural, ela vê infinitos vídeos de parto, principalmente parto em casa, e lê infinitos relatos também. Esses vídeos e relatos mostram o parto da perspectiva que a gente tem quando ele acaba: maravilhoso, transcendental, redentor, melhor coisa da vida. Isso significa que a dor, a dor física, a dor do parto, é relativizada, porque quando tudo acaba ela se torna apenas parte de um processo muito maior e mais bonito do que a dor em si. Só que quando o trabalho de parto tem início e durante longas horas, o que a mulher tem é a dor em si. Muita dor. Muita dor mesmo. E não estamos preparadas para ela, nunca estamos. As longas horas de trabalho de parto são regadas a lágrimas, medo, arrependimento, desejo de fazer qualquer coisa que ponha fim àquilo. Se você não tiver pessoas empoderadas e carinhosas que te segurem a mão e te repitam constantemente que você vai conseguir, que aquilo vai passar, você desiste de tudo mesmo. O trabalho de parto tem que ser acompanhado de muito abraço, de muitas palavras positivas, de muitas músicas inspiradoras, para que a dor seja suportável, para que você atravesse a dor, coloque seu bebê no mundo e entenda porque, afinal de contas, a dor não é esse fantasma todo.
Então o quinto e principal inimigo é você mesma. Porque só você é que pode se convencer a não cair nessas armadilhas que eu descrevi acima. Só você é que pode decidir que é importante, sim, ter uma doula. Só você é que pode chegar para o seu médico do convênio e pedir os números dele sem medo de ser indelicada. Só você pode insistir e informar seu/sua acompanhante para que ele/ela seja aliado/a e não mais um inimigo a enfrentar. Só você pode mandar quem vem com histórias horrorosas calar a boca, dizer que não quer ouvi aquilo. Só você pode tomar a decisão de mudar de médico durante a gravidez. Só você pode decidir ter convênio e mesmo assim ir parir no SUS. Só você pode decidir que vale a pena procurar um grupo de apoio, frequentar rodas de grávidas. Cabe a você. Enfrente-se, encare essas realidades, e conte comigo para te orientar e segurar a sua mão.

Bebê "passa do tempo"?


Primeiro: é possível que em uma gravidez normal já a termo (passando de 38 semanas) um bebê morra dentro da barriga sem que a mãe sinta nada? Sim, é possível. Pode acontecer de, por algum motivo, o bebê não receber nutrientes suficientes da placenta materna e morrer. Só que essa é uma situação drástica, que ocorre quando o pré-natal não é bem feito. Não é à toa que no final da gravidez as consultas, que eram realizadas uma vez por mês, acontecem a cada semana. A ausculta dos batimentos cardíacos do bebê determina se a saúde dele está em ordem. Aliás, os batimentos cardíacos fetais são o melhor indicativo para prosseguir com a gravidez sem medo.
Segundo: o processo da gravidez é natural e perfeito; nossas maneiras de colocar data nele é que não são. A idade gestacional é determinada por duas variantes - a data da última menstruação (DUM) e a idade gestacional apontada pela primeira ultrassonografia. A idade gestacional apontada pela DUM pressupõe um ciclo regular, em que a ovulação ocorreu 14 dias após o primeiro dia da última menstruação. Não sei você, mas a maioria das mulheres que eu conheço não tem um ciclo exato assim. Então você vai concordar comigo que, pela DUM, pode haver uma variação grande aí, né?! 3 dias, uma semana, quinze dias... Então se pela DUM sua gravidez tem 40 semanas, você pode na verdade estar com 39, ou com 41... E a primeira ultra? Se feita logo no comecinho da gravidez, ela é bem confiável. No comecinho, que eu digo, é antes da oitava semana de gestação. Então quando falamos em um bebê "passar da hora", dá pra perceber que o conceito de "hora" é bem relativo, né?!
Terceiro: cada bebê tem um ritmo, cada bebê tem um tempo. Tirar um bebê do útero por medo de passar da hora é arriscar-se a ter um bebê ainda imaturo, com dificuldades para respirar, já que os pulmões são a última parte do corpinho a ficar realmente pronta. Não é à toa que com essa atual onda de cesarianas agendadas a maioria dos bebês internados em UTIs neo natal estão lá por problemas respiratórios.
Quarto: a gravidez vai de 38 a 42 semanas. 42, não 40, tá?! A DPP não é o último dia possível para o bebê nascer, é só - como o próprio nome diz - uma data provável. Foque nas 42 semanas que a ansiedade diminui.
Então tenho dois conselhos que valem ouro para te dar. Sabe a DPP? Então, não precisa espalhar pra todo mundo. Vamos supor que sua DPP seja 15/12: você diz pras pessoas que vai nascer junto com o novo ano. Assim, se nascer antes, todo mundo fica surpreso e feliz, e se nascer de 42, ninguém fica te pressionando. Jogue sempre pra depois das 42 para contar para as pessoas. O outro conselho é: com a gravidez chegando ao seu final, fique o mais off-line possível. Faça o seu pré-natal com toda a responsabilidade e confie no seu corpo e no seu tempo, isolando-se o máximo possível para aproveitar os últimos dias de barriga e fugir dos pitacos que só trazem estresse.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Taxas de cesariana nas maternidades de Brasília



Parir nessa cidade não é fácil. Disso a gente já sabia. Os hospitais particulares são campeões de cesarianas. Disso a gente também já sabia. Mas seguem abaixo as taxas de cesariana (que segundo a Organização Mundial de Saúde devem girar em torno de 15%) dos principais hospitais de Brasília. Se você está na vibe "parir com o plantonista", é bom observar bem.

Por que o ambiente influencia a duração e a qualidade do trabalho de parto?

Por que o ambiente influencia a duração e a qualidade do trabalho de parto?
Como doulas, uma das nossas principais funções é cuidar do ambiente do parto. Estamos sempre apagando a luz, lembrando as pessoas de evitarem conversas paralelas, pedindo silêncio durante as contrações, colocando uma música agradável, usando um óleo essencial para tirar o cheirinho de hospital do quarto... Mas por que isso é tão importante, você sabe?
A primeira coisa a entender é que o trabalho de parto e o nascimento são uma verdadeira revolução hormonal nos organismos da mulher e do bebê. Os hormônios é que controlam tudo: contração, dilatação, expulsão, lactação, tudo é ditado por quatro hormônios principais: ocitocina, endorfinas, epinefrina e prolactina. Esses hormônios são os mesmos para todos os mamíferos, ou seja, é o momento em que nos igualamos a todos os animais que gestam e parem.
Mas há algo que nos diferencia essencialmente de todos os animais que gestam e parem: nosso neocórtex, que é o nosso cérebro racional. Os animais deixam-se guiar basicamente pelos seus instintos, não ficam questionando tanto e pensando tanto como nós, humanos. Naturalmente, os animais procuram um local mais reservado, escuro e tranquilo para parir, e não questionam como nós, aceitam o processo e se entregam a ele, porque é natural.
Já nós, mamíferas humanas, vamos parir em um hospital. Muita luz, muita gente entrando o tempo todo, perguntando coisas, nos obrigando a ficarmos com o nosso racional ligado. Dessa forma, nosso neocórtex funciona mais do que o nosso sistema límbico (essa parte primitiva e irracional do cérebro, que dá ordem para liberação dos hormônios do parto), o que tende a gerar um trabalho de parto mais longo e dolorido.
Para que o trabalho de parto seja mais prazeroso e que a sensação de dor seja aliviada, é preciso que o nosso neocórtex fique o menos ativo possível, ou seja, que a mulher consiga se concentrar no processo sem ser solicitada o tempo todo, sem ter que ficar racionalizando o que está acontecendo. Por isso a atmosfera de silêncio e privacidade, com pouca luz e pouca conversa, ajuda nessa mudança do funcionamento cerebral: se essas forem as condições do momento, a mulher será capaz de, por puro instinto, escolher posições, movimentos, sons que a ajudarão a parir da forma mais confortável possível.
Assim, a doula vai ajudar essa mulher a ter o máximo possível de privacidade e tranquilidade durante o seu trabalho de parto, preparando um ambiente confortável e orientando os presentes a respeitarem esse momento tão grandioso. Eu perco a conta de quantas vezes apago a luz e de quantas vezes digo "Espera a contração passar?" para a equipe de enfermagem. E todas as mulheres que já pariram podem confirmar o quanto isso é importante! Doula já! kkkkkkkk
(Elisa Costa, com imagem do blog felizparto.blogspot.com.br)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Intervenções de parto

Quais são as principais intervenções de parto que as mulheres sofrem?
Gente, esse post é apenas um resumo bem resumidinho mesmo das principais intervenções que as mulheres sofrem quando decidem ter um parto normal. Vale a pena pesquisar e aprofundar um pouquinho em cada uma delas, para que você seja capaz de entender exatamente o que cada uma dessas intervenções faz e, na hora do trabalho de parto, ser capaz de escolher conscientemente o que quer que seja feito ou não.

1.       Administração de ocitocina sintética. A ocitocina sintética é utilizada para induzir ou acelerar o trabalho de parto. A principal consequência negativa é que as contrações vêm muito mais frequentes e doloridas, o que aumenta a chance de a mãe desistir do parto normal e de o bebê entrar em sofrimento fetal. Para ler mais e entender melhor, clique aqui: http://douladebrasilia.blogspot.com.br/2015/08/os-hormonios-do-parto.html
2.       Analgesia. A princípio, parece uma ideia maravilhosa. Parir uma criança sem sentir dor, quem não quer? E olha que os bons anestesistas conseguem aplicar uma dose tão pequena que a gente ainda é capaz de sentir as contrações, mas com bem menos dor. O problema é que a gente pode até sentir as contrações, mas não sente os “puxos”, que são aquela vontade doida de fazer força no período expulsivo, uma força que você faz naturalmente porque não consegue deixar de fazê-la. Com analgesia, você não sabe quando com como fazer força, e aí o expulsivo tende a ser mais longo e difícil, a mulher fica exausta porque faz muita força de modo não efetivo para expulsão do bebê. Isso acaba levando às intervenções 3 e 4.
3.       Kristeller. Uma das maiores atrocidades do nosso sistema obstétrico. É quando o médico ou enfermeira “sobem” em cima da barriga da mulher, empurrando o bebê para que ele desça. Todas as evidências científicas condenam o método e na maioria dos partos ele não é usado, mas volta e meia ouço o relato de um profissional desatualizado que aplicou esse método desastrado. Gente, o bebê tem seu próprio processo no expulsivo. Ele vai, aos pouquinhos, achando o caminho dele, descendo, encaixando. Quando você empurra ele de uma vez, isso vai certamente machucar tanto mãe quanto bebê, aumentando gravemente os riscos de hemorragia e lacerações graves!
4.       Episiotomia. Não há qualquer evidência científica de que a episiotomia (corte na vagina da mulher) diminua o tempo do período expulsivo, e é essa a desculpa com que ela é usada. A maioria dos médicos usa episio de rotina! Para ler mais e entender melhor, clique aqui: http://douladebrasilia.blogspot.com.br/2015/08/e-episiotomia.html

5.       Puxar o cordão para a placenta sair logo. A placenta deve ser parida após o bebê nascer. A mulher volta a sentir algumas contrações e expulsa a placenta que, na maioria dos casos, sai inteira e linda. Algo que ajuda muito nesse processo é colocar o bebê no seio para mamar, mas como na maioria dos hospitais, principalmente os particulares, ainda se separa logo o bebê da mãe, perde-se esse momento tão especial. O problema é que puxar a placenta aumenta os riscos de ficar algum pedacinho dela lá dentro, de ela “quebrar”, e aí os riscos de hemorragia e infecção são bem maiores.

E a episiotomia?

Episiotomia é uma intervenção cirúrgica feita no parto vaginal, em que um corte é feito entre a vagina e o ânus da mulher, a fim de facilitar a saída do bebê. Outra vantagem da episiotomia seria a de prevenir lacerações espontâneas, preservando a saúde genital. A sutura ("costura") da episiotomia é chamada de episiorrafia. Além dos pontos necessários para fechar a episio, alguns obstetras dão também o famoso "ponto do marido", um ponto a mais do que o necessário, para deixar a mulher mais 'apertada', como se tivesse ficado virgem de novo.

Por que a episiotomia é desnecessária?

1. É possível preparar o períneo para que não haja laceração. Exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico e massagens no períneo aumentam a força e a elasticidade da vagina.
2. A simples mudança na posição do expulsivo já aumenta significativamente o canal de parto. Se a mulher ficar de cócoras, o canal vaginal abre 30% em relação à posição deitada de barriga pra cima.
3. Lacerações graves geralmente são causadas não pela saída do bebê em si, mas por outras intervenções de parto (analgesia, puxos dirigidos e a abominável manobra de kristeller, por exemplo).
4. Em um parto sem intervenções, mesmo que haja uma laceração, ela dificilmente vai atingir a camada muscular, a qual é cortada na episio.
5. Mesmo que haja uma laceração, ela vai seguir o desenho natural do tecido, em uma sutura mais “chatinha” de fazer do que o traço reto de uma episio, mas que tem recuperação bem mais rápida.
6. A verdade é que a episiotomia não diminui significativamente o tempo do expulsivo e não impede sequelas para o assoalho pélvico.
7. A episiotomia aumenta a perda de sangue no parto.
8. A episiotomia aumenta a chance de dores pós parto.
9. Os supostos benefícios da episio não compensam seus riscos.
10. O “ponto do marido” costuma gerar como consequência muita dor e incômodo nas primeiras relações sexuais, e não é raro que tenha que ser corrigido cirurgicamente para que a mulher possa voltar a ter relações sexuais.

A única coisa mais grave do que milhões de mulheres terem suas vaginas cortadas desnecessariamente no parto é o fato de elas terem suas vaginas cortadas sem sequer serem avisadas disso! Muitos médicos sequer registram no prontuário que a episiotomia foi realizada. Cortam sem avisar, suturam sem avisar, dão o “ponto do marido” sem avisar. Daí a importância de discutir esse assunto com o obstetra antes de entrar em trabalho de parto, de registrar no plano de parto o desejo de não ser submetida a episiotomia e de, caso ela seja necessária por algum motivo, que o médico aguarde o seu consentimento.

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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Nascimento de Alice, filha de Raquel, neta de Júlia

Raquel me mandou mensagem na segunda-feira cedinho, dizendo que estava com contrações desde 2h da manhã, com dores fortes, mas suportáveis, e sem perda de líquido. Ela mora em Santo Antônio do Descoberto e eu em Águas Claras, mas fiquei preocupada por ser a primeira vez que ela entrava em trabalho de parto, quis tranquilizar a família e ensinar a ela como lidar com as contrações. Então tomei um banho, café da manhã, deixei meu filho na escola e fui encontrá-la.
Chegando lá, a casa estava cheia. Marido, duas irmãs, sobrinha, logo chegou a mãe também. Conversei com ela, acompanhei algumas contrações, ensinei aos acompanhantes como aliviar a dor, tranquilizei a família. Vi que as contrações estavam bem irregulares, então deixei Raquel nas boas mãos da família e fui buscar meu filho, almoçar e descansar um pouco.
Voltei para a casa da Raquel lá pelas 15h. As contrações continuavam irregulares e a casa continuava cheia. As contrações estavam bem mais doloridas, então fiz bastante massagem para aliviar e, quando ela estava mais tranquila, saímos para caminhar. Durante toda a caminhada, com direito a parada para agachamentos no parquinho, as contrações param totalmente. Quando voltamos para casa e o corpo dela esfriou, elas começaram a vir fortes e entrando em um ritmo de uma a cada 6, 7 minutos, mais doloridas. Achei que o trabalho de parto fosse engrenar ali, mas elas perderam o ritmo.
Já eram umas 19h quando chamei Raquel e o marido no quarto, apaguei a luz, coloquei uma música e deixei os dois namorando e ela com a missão de rebolar e agachar pra ver se as contrações engrenavam. Ela logo se queixou de cansaço e sono, então falei para ela deitar e descansar, e tive a sensação de que não seria aquele o dia do nascimento da Alice. Ela foi deitar, mas não ficou meia hora deitada e foi pro banho. No meu entendimento, era hora de ela descansar e poupar energia para o parto, sossegar. Mas a família estava começando a ficar visivelmente tensa e com medo de algo estar errado. Reuni todos na sala para explicar que ela não estava ainda em trabalho de parto ativo, que eram apenas os pródromos, e que aquele estado podia durar muitos dias. Orientei a, caso eles se sentissem inseguros, que fossem ao posto de Santo Antônio mesmo para que o médico ouvisse os batimentos cardíacos do bebê e fui para casa descansar.
Pouco depois, ela me mandou mensagem dizendo que estava indo para o Hospital da Samambaia. Aí começou o circo de horrores... No hospital da Samambaia, não queriam atendê-la porque o pré-natal tinha sido eito na Ceilândia. Insisti muito e eles a avaliaram. Ela estava cm 1cm de dilatação apenas. Ela ficou desesperada, mesmo eu explicando que no primeiro parto a dilatação demora mais porque primeiro o colo do útero tem que apagar para depois dilatar. A madrugada em claro e a falta de sono durante o dia começaram a pesar. Eram cerca de 23h quando ela decidiu ir para o Hospital de Ceilândia, para onde ela não queria ir, mas concluiu que seria a única opção. Falei que seria melhor ela ir para casa e esperar pelo menos até a manhã seguinte, descansar, mas ela estava mesmo muito nervosa e decidiu tentar ser atendida no HRC e pedir a cesárea, que imaginei que seria feita por ela já estar com 41+3 semanas.
No Hospital da Ceilândia, um daqueles espécimes de "profissional" que faz a gente temer pelo futuro dos seres humanos. Um médico tosquíssimo, que não deixou ela entrar acompanhada, que fez um toque brutal dizendo "Tava com 1 cm? Peraí! (forçando a abertura na marra) Agora tá com três!". Ela gritou de dor com o 'toque' cruel, e ouviu "Cala essa boca! Levanta da maca e senta naquela cadeira! Rápido!". O resto de tranquilidade e sanidade que a Raquel tinha a abandonou nesse momento e ela chorava muito. Resolveu que naquele hospital, com aquele médico, ela não ficaria mais e foi para o HMIB. Lá, o médico queria induzir o parto. Já estava quase amanhecendo, 28 horas com contrações e segunda noite sem dormir, ela implorou por uma cesariana, mas não a ouviram, dizendo que ela "ainda aguentava muito".
Ela decidiu, então, fazer um sacrifício nada pequeno e pagar pela realização de uma cesariana em um hospital particular. Foi, então, internada e, às 9h25min, nasceu Alice, com 51cm e 3.865kg. Forte, gordinha, linda demais da conta. Mãe e filha passam bem, Raquel provavelmente dormirá o resto do dia de tão exausta.
E a doula aqui, vai passar o dia digerindo, sabe?! Tentando digerir esse sistema que maltrata, que humilha, que rebaixa a mulher num momento tão importante. Tentando entender o medo que as pessoas têm do parto e a necessidade de estar em um hospital. Tentando absorver a quantidade de procedimentos cruéis e desnecessários que é feita num recém-nascido. Tentando compreender porque esses procedimentos não podem ser feitos ao lado da mãe, por que essa criança é levada para outra sala. Tentando aceitar que, por risco de infecção, assim que o bebê nasce a mulher não pode mais ter um acompanhante ao seu lado. Tentando crer que toda vez que eu, como doula, quiser ver um bebê de doulanda minha nascer vou ter que implorar e aceitar pacificamente ser deixada de lado na hora que aquela mulher mais precisa do meu apoio. A doula está aqui de estômago embrulhado, percebendo claramente como são duros os limites de sua profissão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Até quando esperar se há diabetes gestacional?

Essa da foto é a Mônica, sou doula dela. Durante a gravidez, ela desenvolveu diabetes gestacional, e desde então vem se cuidando super bem, com uma alimentação bem balanceada e sempre monitorando os níveis de açúcar no sangue. Faz acompanhamento pelo convênio, e a opinião do médico sobre ela querer entrar em trabalho de parto está aí na foto.
O mais interessante não é o que ele disse para ela, embora absurdo. É, na consulta seguinte, ele sequer se lembrar de quem ela era e dizer que ela poderia esperar até as 40 semanas.
Alguém me explica o que aconteceu? Ele mudou a conduta médica dele de uma semana para outra e resolveu que não era mais irresponsabilidade esperar mais de 39 ou será que a agenda dele para a semana em que ela completaria 39 não estava propícia e aí subitamente 40 era seguro?
Em tempo, as evidências científicas modernas indicam que, se as taxas de açúcar da mãe estão sob controle e o bebê está sendo monitorado, não há por que interromper precocemente a gravidez, podendo-se chegar a 42 como qualquer outra gestação.


domingo, 2 de agosto de 2015

Os hormônios do parto

O trabalho de parto envolve, como o próprio nome diz, muito trabalho. Todo o corpo se foca em trazer à luz aquele pequeno ser. Mas você sabe qual é a parte do nosso corpo que mais trabalha na hora de parir? Nosso CÉREBRO! Faz sentido, né?! Afinal, é ele quem vai comandar as contrações, acionar e liberar os hormônios necessários, enfim, quem vai ditar todo o processo. Hoje vamos falar um pouquinho sobre esses hormônios, especialmente sobre a ocitocina.
Essa foto é do trabalho de parto do meu segundo filho. Eu gosto demais dela! Porque olhando assim, sem saber o contexto, fica bem difícil definir se essa cara é de prazer ou de dor. E é isso que acontece no parto, dor e prazer misturam-se constantemente!
O primeiro e mais famoso hormônio envolvido no parto é a nossa querida OCITOCINA. Se fosse possível elaborar uma droga do amor, ela com certeza seria o principal ingrediente. É ela a responsável por potencializar as contrações do útero, tornando-as fortes, efetivas e ritmadas até que o bebê nasça. Esse hormônio mágico também é responsável pela expulsão da placenta após o nascimento da criança, pela contração de células no seio para tornar possível a saída do leite . Quando há processos de indução ou tentativas de acelerar o trabalho de parto, é ministrada à mulher a ocitocina sintética. É claro que ela não vai atuar da mesma forma que a ocitocina naturalmente produzida! Vamos às principais diferenças:
a. O organismo diminui o número de receptores diante da ocitocina sintética, para prevenir um excesso de estimulação, o que aumenta os riscos de hemorragia, já que sua própria ocitocina será reduzida.
b. A ocitocina natural penetra na placenta e “desliga” um pouco o cérebro do bebê para reduzir a necessidade de oxigênio, o que a ocitocina sintética não é capaz de fazer e por isso seu uso tem maior chance de causar sofrimento fetal.
c. As contrações são até três vezes mais fortes do que as geradas pela ocitocina natural, sendo também mais longas e com intervalo mais curto entre elas. Isso pode fazer com que a mãe libere adrenalina, travando a progressão do trabalho de parto.
Depois do nascimento, os níveis de ocitocina ficam ainda maiores! Isso ajuda a proteger a mãe, porque faz com que o útero se contraia, evitando hemorragia. Mas esses altíssimos níveis de ocitocina logo após o parto têm uma função emocional muito importante: estabelecer o vínculo entre a mãe e o bebê. É ela quem gera aquele amor que te faz chorar só de olhar para o serzinho que saiu de dentro de você. E assim o que era potencialmente um evento traumático devido à sua intensidade – o parto – é ressignificado em uma experiência de amor, envolvimento, superação, felicidade..
No final de cada contração, o organismo libera endorfinas, que geram o relaxamento. Se a ocitocina é o hormônio do amor, a endorfina é, sem dúvida, o hormônio do prazer. É ela quem propicia uma sensação de euforia, mas também é uma espécie de anestésico natural. Nosso organismo é realmente muito sábio! Entre as contrações, que são fortes e doloridas, vem aquela sensação boa de relaxamento, semelhante àquela que experimentamos logo após uma atividade física intensa ou um orgasmo. Assim, o próprio organismo se encarrega de “compensar” a dor do parto. Então a verdade é que fala-se muito da dor do parto, mas só quem já passou pela experiência pode dizer que também há, em um parto natural, muito prazer envolvido.
Também está presente no parto um hormônio chamado prostraglandina, responsável pelo apagamento e dilatação do colo do útero. Já ouviram falar que sexo no final da gravidez estimula o trabalho de parto? Isso acontece por dois fatores: o orgasmo feminino gera contrações do útero e o sêmen contém prostraglandinas, que podem favorecer o início do trabalho de parto.
Ao longo do trabalho de parto, a grande vilã é a adrenalina. Se ela está presente em grande quantidade, atrapalha muito a liberação dos hormônios que fazem com que o trabalho de parto progrida. Porém, no final do trabalho de parto, no período que chamamos de expulsivo, há uma brusca elevação da adrenalina. As mulheres tendem a ficar em posição vertical, com uma súbita energia, sentindo a necessidade de se agarrarem a pessoas ou objetos. Essa adrenalina faz com que a mãe fique especialmente alerta após o nascimento do filho, uma questão evolutiva para a proteção do recém-nascido.
Para que esses hormônios do parto sejam liberados adequadamente, é preciso que o seu sistema límbico esteja ativo. O sistema límbico é o nosso cérebro mais primitivo, mais instintivo e, para que ele atue adequadamente é necessário que a mulher esteja relaxada, desligada de preocupações. Isso explica porque muitos trabalhos de parto se iniciam de madrugada, né?! Mas aqui reside também um grande segredo: se, no decorrer do trabalho de parto, a mulher se sente assustada, observada, preocupada, esse sistema límbico dá uma “travada” e os hormônios deixam de ser liberados adequadamente. Aí a gente entende porque muitas vezes o trabalho de parto está progredindo maravilhosamente em casa e, quando a mulher chega ao hospital, as contrações param do nada – ela saiu de um ambiente onde se sente segura e tranquila para um ambiente muito iluminado, movimentado, com ruídos e onde está constantemente sendo observada. O que uma mulher em trabalho de parto precisa para que seus hormônios sejam adequadamente liberados é, portanto, privacidade, penumbra, sensação de segurança e silêncio .
Gostou do texto? Compartilhe-o e curta nossa página, tem sempre muita informação de qualidade para quem deseja parir!

Posições

É muito interessante acompanhar um trabalho de parto. Assim como cada mulher é única, cada nascimento vem imbuído das suas particularidades, da sua individualidade. Cada mulher encontra a sua maneira de lidar com a dor e de conseguir descansar nos intervalos.
Um dos papeis da doula é tentar aliviar a dor por meios não farmacológicos. Isso inclui sugerir à mulher posições diferentes, em que a dor seja aliviada. Para algumas, isso significa ficar de cócoras; para outras, de pé, debruçada sobre algo; às vezes, em quatro apoios. Não temos como saber ou prever em que posição a mulher ficará mais confortável durante as contrações. Inclusive porque a posição que agora serviu pode mudar na próxima contração. Mas uma coisa é quase certa: deitada essa mulher não vai conseguir ficar. As contrações são bem mais doloridas dessa forma, principalmente se a mulher estiver de barriga pra cima.
Isso gera duas consequências simples e que contrariam fortemente nosso sistema obstétrico. A primeira é que assim que chegamos a um hospital parindo, eles querem nos colocar no soro. Ora, se a mulher está se alimentando e bebendo bastante água (outro papel fundamental da doula – oferecer constantemente líquidos e alimentos energéticos para essa mulher), o soro é desnecessário e, quando estamos com ele, a mudança de posição e a locomoção se torna bem mais complicada.
A segunda consequência você entende em uma imagem simples. Visualize uma mulher parindo num hospital. Ótimo! Em que posição ela está? Isso mesmo: deitada de barriga pra cima. Justamente na posição que eu comentei ali em cima ser a pior, a mais dolorida, a mais sofrida para a mulher. Mas então porque raios de diabos a mulher é colocada para parir nessa posição? Elementar, meu caro Watson, para que o médico fique confortavelmente sentado e com fácil acesso a essa mulher na saída do bebê. Vê lá se médico vai sentar no chão para pegar o bebê de uma mulher parindo de cócoras? Só que essa posição, além da dor, traz outro dois problemas: a saída do bebê fica menos aberta e perde-se o auxílio da gravidade na descida e saída da criança.
É por isso que a gente, a galera roots da humanização do parto, bate tanto na tecla da liberdade de posição da mulher no trabalho de parto e nascimento. Agora você já sabe. Coloque no seu plano de parto, discuta com seu médico!