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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O eterno drama do corpo

Eu sempre me achei gorda. Sempre. Até quando eu tinha esse corpo (sou a da esquerda, de pé levantado, com essa sandália medonha):


Desde que me entendo por gente faço dietas. Ao engravidar, engordei módicos 30 quilos. A meta da mulherada é 9-10 quilos, e eu engordei 30. Emagreci 10 sem muita dificuldade, fiz dieta e emagreci mais 10 e pimba! Engravidei de novo! Engordei mais 20. Fiz Herbalife, emagreci tudo o que engordei da segunda gravidez e pá! Engordei tudo de novo. Quase 20 anos e 35 quilos separam essa menina da foto da mulher abaixo, que sou eu hoje:


É isso mesmo, estou começando esse post com um "antes e depois" às avessas. Estou exibindo, muito claramente, o peso que ganhei ao longo de 20 anos e duas gravidezes. Seguem mais algumas fotos:


É isso. Tem barriga, muita barriga e barriga flácida. Tem estria, tem celulite, tem culote, tem pneuzinho. E eu seria incrivelmente hipócrita se dissesse que nada disso me incomoda nunca. Se dissesse que é legal procurar roupa e não achar nada que caia bem. Não é isso que estou dizendo, gente. Estou dizendo que esse é o MEU CORPO, e que ele é o resultado da geração de duas crianças lindas e saudáveis, além, claro, da ingestão de muitas coisas deliciosamente cheias de gordura e açúcar. Não sou magrinha, mas continuo me achando bem gostosa... tenho peitão, bundão, cintura... Tenho um marido que com todas as mudanças do corpo me deseja do mesmo jeito (na verdade mais hoje), continuo recebendo cantada dos homens... Quero emagrecer? Até quero. Nunca até o corpo daquela garotinha ali de cima que um dia fui eu, mas gostaria de emagrecer uns 5-10 quilos, para perder essa papadinha ali que acho feia pra caramba. Mas preciso emagrecer? NÃO PRECISO. Meus exames estão muito bem, obrigada, inclusive melhores do que de muita gente magrinha que eu conheço. Se minha saúde está maravilhosa, qual é o outro motivo pelo qual eu DEVERIA emagrecer?

Aí eu fico pensando muito. Com 35 quilos a menos eu já me achava gorda, já era cheia de complexos. Será que o problema está na barriga ou na cabeça? Gente... fico louca com o tanto de mulheres magras, lindas, sofrendo porque estão 5 quilos acima do peso! Fazendo dietas radicais porque querem ter o corpo da panicat da TV... Já pararam pra pensar na vida de merda que essas mulheres devem levar? Com certeza sem a cervejinha, sem o doce, malhando infinitamente e certamente usando muitas drogas para conseguir aguentar tudo isso sem surtar... Não, gente... Não quero isso pra mim, não...

Tá, Elisa, mas esse blog é sobre gravidez, parto e maternidade... Que que tem isso a ver? T-U-D-O. Como doula, principalmente nesse início de ano (quando bate a culpa alimentar pelo Natal, ano novo e viagem de férias) vejo as mulheres grávidas apavoradas porque engordaram 7 quilos em 24 semanas... Comparando o quanto a outra engordou, apavoradas... Será que é o momento desse tipo de preocupação? A preocupação com uma alimentação saudável tem que existir sim, é claro, pela saúde de mãe e bebê, mas é o número de quilos que reflete isso ou são os exames que a mãe faz a cada trimestre? Por outro lado, mulheres que tiveram bebê há menos de 6 meses desesperadas com seus quilos a mais, suas estrias, seus peitos... Será que é o momento desse tipo de preocupação? A barriga cresceu durante nove meses, um bebê morou ali dentro e está há menos tempo fora da barriga do que passou dentro dela... Há um bebê demandando atenção 24 horas, uma vida profissional chamando, uma casa, um companheiro... Será que é a hora de querer ter o corpo dos sonhos de volta? Será que não é mais saudável olhar-se no espelho reconhecendo as marcas da gravidez e sentir um pouco de gratidão por esse corpo mágico que gerou uma vida? Mais tarde, quando o bebê já estiver um pouco mais independente, quando a vida profissional estiver minimamente em ordem de novo, quando a mulher estiver confortável com a nova vida e a nova rotina, aí sim, gente, e só aí, é hora de preocupar-se com a estética. E sabendo que muito dificilmente o corpo será o mesmo, até porque a mulher não é a mesma. Agora ela é mãe. Um novo status, uma nova vida, um novo corpo.

Vamos tentar aceitar melhor nossas mudanças? Ninguém tem 14 anos para sempre... Querer ter o mesmo corpo é insano, gente... Que tal aprendermos a nos amar, do jeito que somos?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Posições


É muito interessante acompanhar um trabalho de parto. Assim como cada mulher é única, cada nascimento vem imbuído das suas particularidades, da sua individualidade. Cada mulher encontra a sua maneira de lidar com a dor e de conseguir descansar nos intervalos.
Um dos papeis da doula é tentar aliviar a dor por meios não farmacológicos. Isso inclui sugerir à mulher posições diferentes, em que a dor seja aliviada. Para algumas, isso significa ficar de cócoras; para outras, de pé, debruçada sobre algo; às vezes, em quatro apoios. Não temos como saber ou prever em que posição a mulher ficará mais confortável durante as contrações. Inclusive porque a posição que agora serviu pode mudar na próxima contração. Mas uma coisa é quase certa: deitada essa mulher não vai conseguir ficar. As contrações são bem mais doloridas dessa forma, principalmente se a mulher estiver de barriga pra cima.
Isso gera duas consequências simples e que contrariam fortemente nosso sistema obstétrico. A primeira é que assim que chegamos a um hospital parindo, eles querem nos colocar no soro. Ora, se a mulher está se alimentando e bebendo bastante água (outro papel fundamental da doula – oferecer constantemente líquidos e alimentos energéticos para essa mulher), o soro é desnecessário e, quando estamos com ele, a mudança de posição e a locomoção se torna bem mais complicada.
A segunda consequência você entende em uma imagem simples. Visualize uma mulher parindo num hospital. Ótimo! Em que posição ela está? Isso mesmo: deitada de barriga pra cima. Justamente na posição que eu comentei ali em cima ser a pior, a mais dolorida, a mais sofrida para a mulher. Mas então porque raios de diabos a mulher é colocada para parir nessa posição? Elementar, meu caro Watson, para que o médico fique confortavelmente sentado e com fácil acesso a essa mulher na saída do bebê. Vê lá se médico vai sentar no chão para pegar o bebê de uma mulher parindo de cócoras? Só que essa posição, além da dor, traz outro dois problemas: a saída do bebê fica menos aberta e perde-se o auxílio da gravidade na descida e saída da criança.
É por isso que a gente, a galera roots da humanização do parto, bate tanto na tecla da liberdade de posição da mulher no trabalho de parto e nascimento. Agora você já sabe. Coloque no seu plano de parto, discuta com seu médico!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Perdas...

Hoje eu gostaria de conversar com vocês sobre um assunto difícil, doloroso e cheio de tabus: perdas que sofremos durante a gravidez. Vou falar de experiências próprias e de casos que acompanhei, e de antemão peço perdão se despertar sentimentos ruins em quem me ler hoje, mas vejo que o fato de ninguém falar sobre essas coisas joga ainda mais sombra em cima da dor, quando ela acontece nessa fase.
Ninguém deseja, em momento nenhum, sofrer perdas. Queremos viver de ganho em ganho. Estamos pouco acostumados a sofrer, buscamos logo algo que nos alegre, seja uma droga, seja uma viagem, sexa o sexo, seja um remédio. Fugimos das perdas, fugimos da dor de todas as formas que podemos e conhecemos. Durante a gestação, então, principalmente se foi uma gravidez planejada, nos sentimos realmente as mais poderosas do planeta.
Mas as perdas vêm em algum momento, durante toda a nossa vida. E quando sofremos perdas importantes durante a gestação, parece que elas são ainda mais sufocantes. Afinal, muita coisa já está mudando e nós já estamos muito mais sensíveis do que o nosso habitual, e a perda pode ser mesmo avassaladora.
Quando eu estava grávida de 4 meses da minha Alice, cujo sexo eu ainda nem sabia. perdi meu irmão caçula em decorrência de uma cirurgia. Não quero entrar em detalhes de como tudo aconteceu, mas foi absolutamente devastador para mim e para minha família. Meu irmão seria o padrinho da Alice, e eu já tinha dito isso a ele, que ficou todo babão e orgulhoso. No meio da tempestade que foram os primeiros dias sem ele, eu ouvia muito coisas como "tenta não ficar triste, não faz bem pro bebê" ou "logo, logo vai chegar um bebê e vai devolver a alegria para essa casa". Tudo isso soava muito, muito absurdo. Como não ficar triste diante da perda de um irmão de 19 anos??? E numa boa, por mais que a chegada de um bebê seja motivo de alegria, como é que isso iria apagar a dor pelo fato de o meu irmão não estar lá para acompanhar tudo isso??? O melhor conselho que eu ouvi foi de um tio, que me disse: "Tá louca? Chora, sim! O que faz mal para o bebê é você ficar retendo as suas emoções, chore o quanto tiver vontade", e foi o único conselho que levei a sério. Sigo chorando até hoje, mas tenho certeza de que isso não prejudicou em nada os meus bebês.
Assim como eu sofri essa perda tão forte, conheci outras mulheres grávidas ou puérperas que passaram pela mesma dor. E é muito difícil conciliar os sentimentos contraditórios: a dor pela perda e a alegria pela chegada do bebê. Se estamos tristes, nos culpamos por não festejar a nova vida; se estamos alegres, nos culpamos por não chorar a vida que se foi. É importante deixar a culpa de lado, e abrir mesmo o coração para todos os sentimentos dessa fase. Eu lembro que pegava a Alice no colo e conversava com ela mesmo, dizia o quanto eu estava triste pela ausência do tio dela, mas que eu a amava muito, e que isso não diminuía a felicidade por tê-la. Muitas vezes chorei com ela aninhada em meu colo. É importante permitir-se sofrer e permitir-se sorrir.
Essa dualidade já não acontece quando o assunto é a perda gestacional, é um aborto. O aborto é um mergulho silencioso, dolorido, íntimo e cruel num sofrimento sem fim e pouco compreendido. Já no atendimento médico, as mulheres são obrigadas a ouvir coisas como "Ah, isso é super normal", ou "vocês são jovens, logo poderão ter outro bebê", e não entendem que a mãe começa a nascer assim que aqueles dois tracinhos aparecem no exame da farmácia. As pessoas em volta começam a contar dos abortos que sofreram ou viram outros sofrerem, a achar que a mulher que perdeu um bebê está "fazendo drama". Perder um bebê é uma dor muito, muito intensa.
E embora eu nunca tenha sofrido um aborto, tive uma experiência muito forte nesse sentido também, o meu primeiro atendimento como doula. Minha irmã estava grávida de 20 semanas. Uma noite, fomos a uma roda de grávidas que falava sobre trabalho de parto. No dia seguinte, ela mandou mensagem dizendo que tinha sentido contrações durante à noite, e que pela manhã teve um sangramento forte. Falei para ela ir para o hospital na mesma hora, e a médica já não conseguiu ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Um ultrassom confirmou a perda. Eu nunca havia acompanhado um parto, e agora era minha irmã ali, em franco aborto, no mesmo processo de um trabalho de parto, mas para expulsar de seu corpo meu sobrinho já sem vida. Foi muita dor. Horas e horas de contrações, tentativas de alívio, tentativas de compreensão, tentativas de aceitação. Fiquei com ela do início ao fim desse processo que também me faz chorar ainda, e que foi a primeira vez que doulei na minha vida.
Não há consolo, sabe?! A aceitação da morte de um bebê não nascido ainda vem com o tempo e muitas lágrimas, e muitas vezes só há cura - nunca esquecimento - com outra gravidez e nascimento.
A verdade inexorável é que morte e vida são partes de um mesmo ciclo. São duas pontas de um mesmo milagre. E a nós, seres humanos pequenos e limitados, não nos cabe em nenhuma medida determiná-las, apenas aceitá-las com a maior serenidade possível. Essa página é sobre o surgimento da vida, porém é importante que possamos tão abertamente quanto falamos sobre partos, falarmos sobre nossas perdas e dores também. Sintam-se acolhidas, todas as mulheres que passaram por dores semelhantes a essas. Abraço fraterno de doula. E aquelas que quiserem compartilhar aqui suas experiências doloridas, façam isso. Ajuda a curar e ajuda outras mulheres que passam pelas mesmas dores.
(Elisa Costa)
"São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação é a vida"

Será que você é uma mulher do tipo super controladora?

Já falei algumas vezes, aqui, sobre a síndrome da super-mulher. Ela é observada nas mulheres atuais que, após a entrada no mercado de trabalho, passaram a acumular as funções externas com ainda total controle das funções de dentro de casa, ou seja,a mulher trabalha fora, cuida da casa, cuida dos maridos, cuida dos filhos, cuida de si. Mesmo quando ela consegue terceirizar algumas coisas (contrata alguém para os serviços domésticos, por exemplo), ela não abre mão do controle, querendo observar e ditar regras sobre tudo que a pessoa que assumiu a tarefa tem que fazer.
Quando uma dessas super-mulheres descobre-se grávida, essa necessidade de controle e programação impacta diretamente a gravidez (às vezes até mesmo antes dela, quando a mulher decide engravidar e controla muito sistematicamente seu ciclo, querendo determinar o início da gravidez), e ela vai buscar informações, incansavelmente. Estou falando aqui daquela mulher que não se conforma com as informações passadas pelo obstetra e pela doula, mas que pesquisa reportagens, relatos, artigos científicos, que sabe tudo sobre ovulação, concepção, todas as fases da gravidez, exames, parto, pós-parto, amamentação. Eu fui uma grávida assim, então falo de mim mesma também.
O lado bom de ser assim é que você não será enganada facilmente. Muitos médicos hoje utilizam-se de dados ultrapassados ou de falácias para induzir uma cesariana, ou atribuem um peso excessivo a uma pressão que sobe um pouco em uma aferição, e essa mulher que lê tudo e que controla tudo poderá rebater esses argumentos, discutir com mais propriedade, trocar de médico com mais segurança. Saberá melhor o que é bom para si e para seu bebê, optará por um parto mais natural e respeitoso, buscará com mais afinco uma equipe realmente humanizada.
Mas olha... Tem um lado ruim aí também. Nós, super-mulheres obcecadas pelo controle, podemos nos ver subitamente forçadas a abrir mão dele. Seja porque a gravidez não vem quando queremos, seja porque apresenta alguma intercorrência (aborto, descolamento de placenta, etc.), seja porque algo em nosso contexto familiar muda subitamente sem que possamos remediar (doença ou morte na família, divórcio, etc.), para quem busca controlar tudo a adaptação a esse tipo de intercorrência tende a ser muito mais difícil.
E mesmo que nada disso aconteça e a gestação transcorra lindamente, ao optar por um parto natural essas mulheres terão um grande obstáculo: parto é, em essência, a perda do controle. Você não decide a intensidade das dores, a velocidade com que seu corpo dilata, como seu bebê vai reagir ao trabalho de parto, a posição em que ele se encontrará. Você pode pesquisar, e se informar, e se comunicar com a equipe o quanto quiser durante a gravidez, mas, na hora do nascimento do bebê, quanto mais você controlar, mais vai atrapalhar o seu próprio trabalho de parto.
O pós-parto também tende a ser mais complicado para as mulheres controladoras. Porque pós-parto tranquilo é aquele em que a mulher pode se concentrar apenas nela mesma e no bebê. Mas se a mulher precisa trabalhar de casa, cuidar dos afazeres domésticos, dentre outras atribuições estranhas ao binômio mãe-bebê, mais turbulento tende a ser esse período.
Meu conselho? O de sempre - buscar o equilíbrio. Pesquisar sempre, se informar muito, sim, claro. Mas se você tem muita dificuldade em abrir mão do controle, vale a pena buscar ajuda de um psicólogo para trabalhar essa questão, ou, ao menos, buscar terapias alternativas para desligar um pouco esse lado racional: biodanza, yoga, meditação, etc. Quem controla demais costuma achar tudo isso uma "besteira", exatamente por ser excessivamente racional, mas creia: trabalhar o emocional e treinar o 'desligamento' do controle é tão importante quanto saber tudo sobre parto.
(Elisa Costa)

Por que o ambiente influencia a duração e a qualidade do trabalho de parto?

Por que o ambiente influencia a duração e a qualidade do trabalho de parto?
Como doulas, uma das nossas principais funções é cuidar do ambiente do parto. Estamos sempre apagando a luz, lembrando as pessoas de evitarem conversas paralelas, pedindo silêncio durante as contrações, colocando uma música agradável, usando um óleo essencial para tirar o cheirinho de hospital do quarto... Mas por que isso é tão importante, você sabe?
A primeira coisa a entender é que o trabalho de parto e o nascimento são uma verdadeira revolução hormonal nos organismos da mulher e do bebê. Os hormônios é que controlam tudo: contração, dilatação, expulsão, lactação, tudo é ditado por quatro hormônios principais: ocitocina, endorfinas, epinefrina e prolactina. Esses hormônios são os mesmos para todos os mamíferos, ou seja, é o momento em que nos igualamos a todos os animais que gestam e parem.
Mas há algo que nos diferencia essencialmente de todos os animais que gestam e parem: nosso neocórtex, que é o nosso cérebro racional. Os animais deixam-se guiar basicamente pelos seus instintos, não ficam questionando tanto e pensando tanto como nós, humanos. Naturalmente, os animais procuram um local mais reservado, escuro e tranquilo para parir, e não questionam como nós, aceitam o processo e se entregam a ele, porque é natural.
Já nós, mamíferas humanas, vamos parir em um hospital. Muita luz, muita gente entrando o tempo todo, perguntando coisas, nos obrigando a ficarmos com o nosso racional ligado. Dessa forma, nosso neocórtex funciona mais do que o nosso sistema límbico (essa parte primitiva e irracional do cérebro, que dá ordem para liberação dos hormônios do parto), o que tende a gerar um trabalho de parto mais longo e dolorido.
Para que o trabalho de parto seja mais prazeroso e que a sensação de dor seja aliviada, é preciso que o nosso neocórtex fique o menos ativo possível, ou seja, que a mulher consiga se concentrar no processo sem ser solicitada o tempo todo, sem ter que ficar racionalizando o que está acontecendo. Por isso a atmosfera de silêncio e privacidade, com pouca luz e pouca conversa, ajuda nessa mudança do funcionamento cerebral: se essas forem as condições do momento, a mulher será capaz de, por puro instinto, escolher posições, movimentos, sons que a ajudarão a parir da forma mais confortável possível.
Assim, a doula vai ajudar essa mulher a ter o máximo possível de privacidade e tranquilidade durante o seu trabalho de parto, preparando um ambiente confortável e orientando os presentes a respeitarem esse momento tão grandioso. Eu perco a conta de quantas vezes apago a luz e de quantas vezes digo "Espera a contração passar?" para a equipe de enfermagem. E todas as mulheres que já pariram podem confirmar o quanto isso é importante! Doula já! kkkkkkkk
(Elisa Costa, com imagem do blog felizparto.blogspot.com.br)

domingo, 2 de agosto de 2015

Por que ter uma doula?

Bom, gente, pra começar é importante dizer que doula não é acompanhante. E que, por consequência, marido não é doula, mãe não é doula. Cada um tem seu papel, sua importância e seu momento de agir.
O processo de parto e nascimento, principalmente no contexto hospitalar, é marcado muitas vezes por uma atmosfera de risco, com dor, sofrimento, frustração, insatisfação e mesmo violência, sendo muitas as histórias de mulheres que viram o momento mágico do nascimento de seu bebê se tornar uma experiência dolorosa e muito distante do que elas gostariam que fosse. A presença do acompanhante e da doula servem para minimizar ao máximo essas experiências negativas, permitindo que o parto seja experimentado como deve ser.
O apoio oferecido pelo acompanhante e pela doula se complementam. O acompanhante tem um vínculo emocional com a mulher, e isso torna mais difícil que ele se mantenha calmo diante dos desconfortos e queixas da parturiente. Neste mesmo momento, a doula consegue calmamente ajudar essa mulher a lidar com seu trabalho de parto, ao mesmo tempo em que tranquiliza o acompanhante.
A palavra doula vem do grego, significando mulher que serve. Seu papel começa durante a gestação. Seu primeiro papel é ouvir a mulher. Essa mulher que está, em seu turbilhão hormonal, cumprindo as várias tarefas de seu cotidiano, na correria de sempre, e muitas vezes com dificuldades de entrar em contato com as próprias emoções. Não somos psicólogas, mas somos também mulheres, acostumadas a lidar com grávidas, e gostamos de ouvir. Além disso, a doula vai ajudar a grávida a se informar sobre os vários aspectos relacionados ao parto, a fim de encontrar e analisar suas opções e decidir sobre o nascimento da criança. Ela vai também incentivar a elaboração do plano de parto e de pós-parto, em que a mulher registra suas opções para o trabalho de parto, parto e puerpério. Não cabe a ela tomar as decisões, mas sim deixar o casal livre para fazer suas escolhas.
Durante o trabalho de parto, a doula será aquela pessoa que apoia fisicamente a grávida com técnicas não farmacológicas para o alívio da dor – massagens, água quente, dança de posição, etc. É ela também que vai incentivar com palavras e carinho essa mulher, para que ela consiga se concentrar no processo e lembrar das escolhas feitas. Ela não é médica ou enfermeira, logo sua atenção não estará nos procedimentos médicos e técnicos. Sua atenção estará, principalmente, na mulher. Ela é quem vai lembrar de oferecer líquidos, de contar para a mulher como está o seu processo, de incentivá-la. Ela é quem vai ajudar a mulher a visualizar o bebê abrindo seu caminho, quem vai vocalizar junto com ela, quem vai sugerir um banho quente. A presença da doula é carinho, conforto, acolhimento, alívio. E de uma forma que o acompanhante, sozinho, muitas vezes se atrapalha em fazer, justamente por estar muito envolvido emocionalmente com o processo.
Após o nascimento, a doula continua seu suporte, ajudando na adaptação da nova família, alertando sobre o baby blues e a depressão pós-parto, ajudando no estabelecimento da amamentação. Esse vínculo tão forte, estabelecido com a mulher, vai então se desvanecendo, mas pode ser prolongado por um mês, um ano ou até mesmo pela vida toda.
Se você está grávida, procure o quanto antes uma doula. Se não está, divulgue essa página e esse texto para suas amigas grávidas e estimule-as a procurarem uma. Todos os estudos apontam para uma satisfação muito maior com todo o processo de gravidez, parto e puerpério das mulheres que foram acompanhadas por doula, e esse cuidado a gente deseja pra todo mundo!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Não vá carregada para o parto

Meninas,


o texto de hoje, aqui no blog, não é meu. Ele foi escrito por uma doula portuguesa, a Rebeca, e eu achei tão importante e verdadeiro que quis compartilhar com vocês. É impressionante o número de relatos de parto que eu já li em que o processo "travou" completamente quando a mãe sofreu pressão do tipo "você tem que dilatar em tanto tempo", ou de mulheres que estavam muito preocupadas em não dar tempo de arrumar tudo e que não entraram em trabalho de parto até que conseguissem relaxar em relação a isso. É impressionante a influência de nossos medos e de nosso estresse sobre nossa cria e nosso processo de trazê-la ao mundo. Leiam com carinho!




O medo, a insegurança, a falta de auto-confiança, a distância em relação ao corpo são pesos que carregamos para o parto e vão condicioná-lo. Preparar-se para o parto é sobretudo aliviar a carga.


A parteira mexicana Naoli Vinaver diz que carregamos muitas malas conosco para o parto. Não é só a mala com as nossas roupas e as do bebê. São as malas com tudo o que temos por resolver na nossa vida, com tudo aquilo que o que nos amarra. São malas bem pesadas, por vezes. E às vezes são imensas. Durante o trabalho de parto vamos libertando-nos de muitas delas, vamos nos desamarrando. Por isso se diz que o parto pode ser transformador. Mas se o peso for excessivo, o parto pode arrastar-se, complicar-se ou até não ter início. Por isso, a enfermeira parteira Lúcia Leite diz que "a preparação para o parto faz-se no coração e na cabeça, trabalhando os medos e a auto-confiança." Por isso, o obstetra Ricardo Jones escreve: "Tanto quanto no sexo, existe muito mais no nascimento humano do que o que se pode encontrar no corpo e suas medidas."


Apesar de a obstetrícia ainda não incorporar na sua prática esta evidência científica, a verdade é que se descobriu uma nova dimensão no nascimento, qual seja, a indissociabilidade das emoções e sentimentos ao lado dos eventos mecânicos já conhecidos. Ficou evidente que muitas mulheres falhavam em ter seus filhos de uma forma mais natural porque algo além do corpo as impedia. O medo faz com que as mulheres estejam contraídas e não deixa libertar os hormônios que estimulam as contrações e a dilatação. Isto é assim porque somos mamíferos e a natureza, que sabe o que faz, encontrou esta forma de proteger as nossas crias: elas não nasceriam em ambiente ameaçador, mas apenas quando a mãe estivesse tranquila e segura.


Tendo em conta estas evidências, vale a pena preparar-se e aliviar alguma da sua carga. Faça-o por si e pelo seu bebê. Um parto com menos intervenção é um parto mais saudável, com menos riscos, que leva a um pós-parto infinitamente mais fácil. O poder de dar à luz o seu bebê está em voc só tem de descobri-lo.


Deixamos-lhe algumas dicas:


- Converse com alguém da sua confiança, fale dos seus medos, mesmo daqueles que parecem mais inconfessáveis, mais patetas, mais simples ou mais complicados.


- Se não tem ninguém com quem falar do mais íntimo do íntimo, dos medos mais inconfessáveis, se lhe custa verbalizar, ouvir-se dizer coisas que ainda nem percebeu muito bem... escreva. Um diário de gravidez é bom, mas é para deixar para a história. Escreva num caderno que seja só seu, onde não sinta os olhares de quem vai ler. Registre sentimentos, medos, inseguranças e você vai se libertar de um grande peso. Escrever é uma excelente maneira de colocar pra fora porque ninguém nos está ouvindo, mas também de organizar as ideias, trabalhar os medos, estruturar as prioridades.


- Participe em listas de discussão sobre parto humanizado.


- Procure uma doula que poderá acompanhará-la na gravidez, no parto e no pós-parto dando-lhe apoio emocional, ajudando-a a desfazer muitos dos seus medos.


- Faça uma lista daquilo que quer fazer ou resolver antes de do parto. Não se limite às compras e à preparação do quarto do bebê.


- Pratique ioga ou pilates. Ajuda não só fisicamente, mas também mentalmente, promovendo bem-estar e a união com o bebê.


- Aprenda técnicas de relaxamento ou meditação. Para quem tem altos níveis de ansiedade, estas técnicas são uma excelente forma de encontrar mais tranquilidade e confiança no próprio corpo. Um relaxamento profundo produz ondas cerebrais alfa, diminui a tensão arterial, reduz a tensão muscular, logo reduz também o stress e a ansiedade.


- Visualização positiva: visualizar o bebê estimula a ligação com ele e acalma os medos.


- Abrande o ritmo perto do final da gestação. Se puder, suspenda o trabalho. Dedique-se a fazer o ninho e relaxar. Passeios à beira-mar e ouvir música são boas atividades para aproveitar o fim do tempo de gestação.