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terça-feira, 12 de abril de 2016

Relato de parto: chegada de Helena, filha da Cláudia

Obaaaa! Hoje tem relato de parto!



Meu primeiro encontro com a Cláudia foi no final de dezembro. Desde então, nos encontramos praticamente todas as semanas, conversando sobre gestação, parto e pós-parto. Foram muitas rodas, muitas conversas, muita, muita, muita informação. Uma mulher de personalidade forte, muito empoderada, muito segura, grávida de sua primeira filha e fazendo absolutamente tudo que estava ao alcance dela para ter um parto normal, que considerava mais seguro e cheio de benefícios para ela e para a filhinha, Helena. Além das rodas, era fácil perceber que ela também buscava sempre ler sobre o assunto, assistir vídeos de parto e se preparar fisicamente, com pilates e fisioterapia. Cada um desses fatores teve seu papel para que ela tivesse o parto com que tanto sonhou.

A Cláudia vinha em pródromos desde o dia anterior (08/04), e lidando muito bem com isso. Tampão saindo rajado de sangue, contrações doloridas, mas sem ritmo. Íamos nos falando de tempos em tempos, para eu me atualizar do andamento das coisas e sempre deixando claro que a qualquer momento em que ela sentisse que realmente precisasse de mim, era só chamar.

Por volta do meio-dia, ela me ligou. As contrações estavam já muito doloridas, e ela precisava de apoio. Quando eu cheguei lá, o Deivinin já estava de câmera no pescoço, chave na mão e desespero no rosto. E a Cláudia na bola, debaixo do chuveiro, respirando, tranquila. Conversei com ela um pouquinho e expliquei que naquela hora a prioridade era acalmar o pai....kkkkkkkk Sentei com ele para a seguinte explicação:

"Então... sabe essa dor que ela está sentindo? Ela ainda vai mais que dobrar... As contrações não regularam ainda... Pode se acalmar, almoçar, que ainda demora um pouco pra gente ir pro hospital." - Deu certo, ele acalmou.

Então ficaram os dois um bom tempo no banheiro conversando, bolsa rompeu, Deivinin almoçou, Cláudia comeu açaí, assistimos bobagem na televisão, criamos grupo no whatsapp para ir atualizando a família e os amigos, e desse jeitinho, tranquilo e divertido, as contrações foram se intensificando e regularizaram de 3 em 3 minutos. Meu papel foi, até aí, apenas de manter os dois tranquilos e seguros de que tudo estava dentro do previsto, continuando no aconchego do lar até que o parto evoluísse o suficiente para justificar a ida ao hospital. Agora, sim, meu, povo, hora de ir para o hospital. Usei um rebozo para que a Cláudia tivesse em que se agarrar durante as contrações (trem bom é puxar pano quando a gente está com dor!). Eram 15:30.

Chegamos ao hospital e muito prontamente encaminharam a Cláudia para triagem e exames. Coraçãozinho de Helena batendo muito bem, Cláudia com (uaaaaaaaaau, todo mundo muito surpreso) 7 cm de dilatação, colo bem fininho e bebê já bem lá embaixo. Toda a preparação que ela fez antes do parto, mais a aceitação de cada contração como parte natural do processo, (tá ok, tá ok, uma ajudinha boooa da genética também) fizeram com que o corpo dela respondesse muito bem. A plantonista ficou impressionada com uma evolução tão rápida em uma primeira gestação e já entrou em contato com o dr. Marcondes, médico dela, que pediu que a deixassem num dos boxes de observação e voltassem a fazer o exame de toque em uma hora. Eram 16:30.

Deivinin foi cuidar da burocracia da internação e eu fiquei com a Cláudia. As contrações se intensificaram e ela disse que estava com vontade de fazer força. Que que a doula diz nessa hora? Faz força, ué.... E ela foi fazendo caras, barulhos e forças que caracterizavam muito bem o período expulsivo do parto. E aí a doula faz o quê? Massagem na lombar, encorajamento e tranquilização. "Faz sua força tranquila... O máximo que vai acontecer é nascer aqui e não no centro obstétrico, já estamos no hospital, rodeados de profissionais de saúde". Ela entendeu, riu, curtiu e foi fazendo força e gritando a cada contração. Uma enfermeira percebeu que a coisa estava séria e correu pra chamar a médica plantonista, que fez o toque, constatou 9 cm e mandou subir com ela para o centro obstétrico. Eram 17:20.

Deivinin e eu ganhamos o prêmio de velocidade do hospital, nunca vi duas pessoas colocarem uma roupa cirúrgica mais rápido do que a gente, kkkkkkk! Ainda bem, porque chegamos lá e, três contrações depois, nasceu a linda Helena, no dia 09 de abril, às 17:40, com 51 cm e 3,310kg. Infelizmente, estava acontecendo uma cesariana no mesmo horário, então a pressa para "liberarem o pediatra" foi imensa, e tiraram ela de perto da mãe rápido demais. A Cláudia estava radiante, luminosa, tranquila. Ninguém acreditaria que ela tinha acabado de parir uma criança (se não acredita, olha ali em cima na montagem a foto em que ela está dando um joinha, foi menos de 15 minutos depois do nascimento da Helena). Um parto rápido, cheio de felicidade e paz, sem qualquer intervenção, melhor do que em nossas melhores expectativas.

Parabéns, Cláudia! Parabéns, Deivinin! Foi mágico participar dessa gravidez e desse nascimento, vocês são o máximo!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Por que o parto normal é melhor para o bebê?


1. O trabalho de parto faz com que o bebê produza o cortisol, o hormônio do estresse. Se nos seres humanos o excesso desse hormônio traz diversas consequências negativas, no bebê ele vai atuar deixando os pulmões prontos para respirar.
2. Ao passar pelo canal vaginal, o tórax do bebê é comprimido, o que facilita a expulsão de líquido amniótico de dentro dos pulmões, facilitando a primeira respiração.
3. O risco de precisar de uma UTI é 4 vezes menor se o bebê nasce por parto normal.
4. A certeza de que o bebê está pronto para nascer. Os pulmões do bebê só amadurecem nas últimas semanas de gestação e, quando não há o início do trabalho de parto, corre-se o risco de que o bebê nasça antes de esse amadurecimento ser completo, o que pode gerar graves problemas respiratórios.
5. Ao passar pelo canal vaginal da mãe, o bebê entra em contato com as bactérias maternas, o que ativa seu sistema imunológico e promove maior resistência a alergias.
6. As alterações hormonais da mãe beneficiam o bebê de forma que ele se torna mais ativo e responsivo ao nascer. Os bebês que nascem de parto normal e não têm o cordão umbilical cortado, se forem colocados no colo da mãe, se arrastam até o seio para mamar sem precisar de nenhuma ajuda.
7. Durante a passagem pelo canal vaginal, o bebê é ‘apertado’, despertando a criança para o toque, o que faz com que ela estranhe menos o toque dos médicos e enfermeiros.

ALERTA DE POST MEGA SUPER ULTRA IMPORTANTE!!!!


Hey, gravidinhas e gravidinhos do meu Brasil! O post de hoje é essencial para quem não quer cair no conto do vigário da desneCESÁREA, ou seja, fazer uma cesárea sem que haja real necessidade para isso. Vou colocar aqui para vocês um post do blog "estuda, Melânia, estuda", da médica Melânia Amorim, uma excelente obstetra que trabalha há anos com parto humanizado. Temos, então, uma lista bem completa de indicações REAIS de cesariana, ou seja, casos em que ela é de fato necessária; POSSÍVEIS indicações, ou seja, quando a cesárea pode ser necessária e como ela é usada como desculpa às vezes; DESCULPAS ESFARRAPADAS que os médicos comumente usam para fazer cesárea, mas que não são indicações reais. Leiam mil vezes!
INDICAÇÕES REAIS E FICTÍCIAS PARA A CESÁREA
Algumas indicações de cesariana
REAIS
1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;
2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;
3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);
4) Apresentação córmica (situação transversa) - durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);
5) Ruptura de vasa praevia;
6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto (em algumas diretrizes, somente se for a primoinfecção herpética).
PODEM ACONTECER, PORÉM FREQUENTEMENTE SÃO DIAGNOSTICADAS DE FORMA EQUIVOCADA
1) Desproporção cefalopélvica (DCP): o diagnóstico só é possível intraparto e não pode ser antecipado durante a gravidez. Em 1934 um obstetra (Barbour) já dizia que "o melhor pelvímetro é a cabeça fetal", e é avaliando a progressão da cabeça fetal através do canal de parto na presença de contrações eficientes que pode ser aventada a suspeita de DCP;
2) Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é "frequência cardíaca fetal não-tranquilizadora", exatamente para evitar diagnósticos equivocados baseados tão-somente em padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal);
3) Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais (correção da hipoatividade uterina, amniotomia): recentemente tanto autores como diretrizes concordam que os critérios devem ser mais elásticos. O próprio uso de ocitocina e a amniotomia não têm efetividade comprovada quando comparados com a conduta expectante;
Pela grande variação do que é fisiológico, considera-se que não é necessário intervir para apressar um parto, independente de sua duração, quando mãe e bebê estão bem.
Nota: o uso do partograma de Friedman é altamente questionável. A curva de evolução do trabalho de parto tem grande variação, recomendando-se atualmente a curva de Zhang (2010), com percentis. Outras curvas em outras populações estão sendo estudadas.
SITUAÇÕES ESPECIAIS EM QUE A CONDUTA DEVE SER INDIVIDUALIZADA, CONSIDERANDO-SE AS PECULIARIDADES DE CADA CASO E AS EXPECTATIVAS DA GESTANTE, APÓS INFORMAÇÃO
1) Apresentação pélvica (recomenda-se oferecer versão cefálica externa depois de 36 semanas mas se não for bem sucedida ou não for aceita pela gestante, discutir riscos e benefícios: o parto pélvico só deve ser tentado com equipe experiente e se for essa a decisão da gestante);
2) Duas ou mais cesáreas anteriores (o risco potencial de uma ruptura uterina – variando de 0,5% - 1% - deve ser pesado contra os riscos de se repetir a cesariana, que variam desde lesão vesical até hemorragia, infecção e maior chance de histerectomia); as diretrizes mais recentes não discriminam entre uma ou duas cesáreas para quem quer tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean = Parto Vaginal Após Cesárea);
3) hiv/aids (cesariana eletiva indicada se HIV + com contagem de CD4 baixa ou desconhecida e/ou carga viral acima de 1.000 cópias ou desconhecida); em franco trabalho de parto e na presença de ruptura de membranas, individualizar casos.
Algumas desculpas utilizadas pelos profissionais para realizar uma DESNEcesárea (em ordem alfabética)
1. Abdominoplastia prévia
2. Aceleração dos batimentos fetais
3. Adolescência
4. Ameaça de chuva/temporal na cidade
5. Anemia falciforme
6. Ameaça de parto prematuro (?)
7. Anemia ferropriva
8. Anemia de qualquer tipo (entendam, gestantes, a cesariana vai agravar a anemia, uma vez que a perda sanguínea é cerca de 500ml no parto normal e 1.000ml na cesariana)
9. Anencefalia
10. Anticoagulação (uso de warfarin que já deveria estar suspenso a termo, uso de heparina de baixo peso molecular, uso de heparina convencional)
11. Artéria umbilical única
12. Asma
13. Assalto ou outras formas de violência (gestante ou familiar foi vítima de assalto, então o bebê pode ficar estressado)
14. Acidente Vascular Cerebral (AVC) prévio
15. Bacia "muito estreita"
16. Baixa estatura materna
17. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso
18. Bebê alto, não encaixado antes do início do trabalho de parto
19. Bebê profundamente encaixado
20. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
21. Bebê "grande demais" (macrossomia fetal só é diagnosticada se o peso é maior ou igual que 4kg e não indica cesariana, salvo nos casos de diabetes materno com estimativa de peso fetal maior que 4,5kg. Não se justifica ultrassonografia a termo em gestantes de baixo risco para avaliação do peso fetal).
22. Bebê "pequeno demais"
23. Bebê engolindo o líquido amniótico
24. Bebê flagrado apertando o cordão durante a ultrassonografia, o que aparentemente levou a bradicardia
25. Bilhete ou telefonema do prefeito/secretário de saúde de município próximo – Bilhete de qualquer político
26. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe)
27. Calcificação da sínfise púbica (alegando-se que ocorreria em TODAS as mulheres com mais de 35 anos, impedindo o parto normal)
28. Candidíase
29. Cardiopatia (o melhor parto para a maioria das cardiopatas é o vaginal)
30. Cegueira materna
31. Ceratocone
32. Cesárea anterior
33. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma
34. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultrassonografistas e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso)
35. Cirurgia gastrointestinal prévia
36. Colestase gravídica
37. Coleta de sangue do cordão umbilical para congelamento e preservação de células-tronco
38. Colo grosso, colo posterior, colo duro, colo alto e (paradoxalmente) colo curto
39. Colostomia (sim, porque é melhor fazer uma incisão abdominal perto do estoma com fezes do que um parto normal bem distante da área...)
40. Conização prévia do colo uterino
41. Condilomas (verrugas genitais) que não provocam obstrução do canal de parto.
42. Constipação (prisão de ventre)
43. Cordão curto (impossível a mensuração antes do nascimento)
44. Cálculo renal (nefrolitíase)
45. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas (incluindo aniversário do obstetra)
46. Datas significativas como 11/11/11 ou 12/12/12 (ainda bem que a partir de 2013 precisaremos esperar o próximo século mas ainda inventam outras...)
47. Diabetes mellitus clínico ou gestacional
48. Diagnóstico de desproporção cefalopélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto e antes da dilatação de 8 a 10 cm
49. Disfunção da sínfise púbica
50. Dorso à direita, dorso posterior, ou dorso em qualquer outro lugar
51. Edema de membros inferiores/edema generalizado
52. Eletrocauterização prévia do colo uterino
53. Endometriose em qualquer grau e localização
54. Enxaqueca materna
55. Epilepsia e uso de qualquer droga antiepiléptica
56. Escoliose
57. Espondilite anquilosante – Qualquer espondiloartropatia
58. Estreptococo do Grupo B (EGB) no rastreamento com cultura anovaginal entre 35-37 semanas
59. Exérese prévia de pólipos intestinais por colonoscopia
60. Falta de dilatação antes do trabalho de parto
61. Falta de vagas nos hospitais se a gestante não marcar a cesárea
62. Feto com “unhas compridas”
63. Feto morto
64. Fibromialgia
65. Fratura de cóccix em algum momento da vida
66. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come)
67. Gestação gemelar com os dois conceptos, ou o primeiro, em apresentação cefálica
68. Gestante saudável demais, correndo o risco de ter um parto fácil e muito rápido, podendo parir antes de chegar ao hospital, com risco de morte do bebê
69. Gravidez não desejada
70. Gravidez prolongada
71. Grumos no líquido amniótico
72. Hemorroidas
73. Hepatite B e Hepatite C
74. Hérnia de disco, operada ou não, em qualquer segmento da coluna vertebral
75. Hérnia inguinal, hérnia incisional e hérnia umbilical
76. Hiperprolactinemia
77. Hipertireoidismo
78. Hipotireoidismo
79. História de cesárea na família
80. História de câncer de mama ou câncer de mama na gravidez
81. História de depressão pós-parto
82. História de natimorto ou óbito neonatal em gravidez anterior
83. História de trombose venosa profunda
84. História familiar de fibrose cística do pâncreas
85. HPV com ou sem NIC
86. Idade materna “avançada” (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral refere-se às mulheres com mais de 35 anos. Há pouco tempo a fisioterapeuta que faz parte de nossa equipe foi considerada "idosa"por um plantonista de certa maternidade que não me convém indicar...
87. Incisura nas artérias uterinas (pesquisada inutilmente, uma vez que não se deve realizar oplervelocimetria em uma gravidez normal)
88. Incontinência urinária de esforço ou estar fazendo muito xixi no final da gravidez
89. Infecção urinária
90. Inseminação artificial, FIV, qualquer procedimento de fertilização assistida (pela ideia de que bebês “superdesejados” teriam melhor prognóstico com a cesárea) – motivo pelo qual esses bebês aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal
91. Insuficiência istmocervical (paradoxalmente, mulheres que têm partos muito fáceis são submetidas a cesarianas eletivas com 37 semanas SEM retirada dos pontos da circlagem)
92. Insuficiência Renal Aguda ou Crônica
93. Jogo do Atlético x Cruzeiro (mas pode substituir por Flamengo x Fluminense, Grêmio x Internacional ou qualquer clássico de sua cidade), afetando o tráfego urbano
94. Laparotomia prévia
95. Lesão medular (habitualmente acarretando paralisia: tetraplegia, paraplegia, hemiplegia, diplegia, dependendo do nível da lesão): essas mulheres em geral são cadeirantes e podem ter partos sem dor, mas o diagnóstico não é indicação de cesárea!
96. Líquido amniótico em excesso
97. Lúpus eritematoso sistêmico (LES)
98. Magreza da mãe
99.Malformação cardíaca fetal
100. Mecônio no líquido amniótico (só indica cesariana se houver associação com padrões anômalos de frequência cardíaca fetal, sugerindo sofrimento fetal)
101. Mioma uterino (exceto se funcionar como tumor prévio)
102. Miscigenação racial (pelo “elevado risco” de desproporção céfalo-pélvica)
103. Neoplasia intraepitelial cervical (NIC)
104. Nó verdadeiro de cordão (impossível o diagnóstico antenatal, sorry)
105. Obesidade materna
106. Paciente “não tem perfil para parto normal”
107. Paciente “não ajuda para o parto normal” (momento vidente ON: “no fundo ela quer cesárea”)
108. Parto “prolongado” ou período expulsivo “prolongado” (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra). O diagnóstico deve se apoiar no partograma. O próprio ACOG só reconhece período expulsivo prolongado mais de duas horas em primíparas e uma hora em multíparas sem analgesia ou mais de três horas em primíparas e duas horas em multíparas com analgesia. Na curva de Zhang o percentil 95 é de 3,6 horas para primíparas e 2,8 horas para multíparas)
109. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas)
110. Perineoplastia anterior
111. Pé (do feto) nas costelas
112. Pé torto congênito
113. Placenta grau III ou II ou I ou qualquer outra classificação placentária
114. Placentas baixas não oclusivas do colo do útero
115. Plaquetopenia
116. Pólipos uterinos
117. Possível falta de vaga em maternidade para um parto normal, caso a gestante não marque a cesárea
118. Pouco líquido no exame ultrassonográfico (sem indicação no final da gravidez em gestantes normais)
119. Praticar musculação ou ser atleta
120. Pressão alta
121. Pressão baixa
122. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia, grande miopia, ceratocone e descolamento da retina
123. Profissão professora
124. Prolapso de valva mitral
125. Prótese total de quadril
126. Prurido gestacional
127. Qualquer malformação fetal incompatível com a vida
128. Qualquer procedimento cirúrgico durante a gravidez
129. Queloide ou tendência a queloide podendo complicar uma episiotomia (e a cesárea não? E para que fazer episiotomia?)
130. Reação vasovagal
131. Sedentarismo
132. Septo uterino/cirurgia prévia para ressecção de septo por via histeroscópica
133. Ser bailarina
134. Sono fetal (bebê que dorme durante o trabalho de parto)
135. Suspeita ecográfica de mecônio no líquido amniótico
136. Síndrome de Down e qualquer outra cromossomopatia
137. Síndrome de Ovários Policísticos (SOP)
138. Tabagismo
139. Trabalho de parto prematuro
140. Trânsito urbano muito intenso
141. Tricomoníase
142. Trombofilias
143. Trombose venosa profunda
144. Varizes uterinas
145. Varizes em membros inferiores
146. Varizes na vulva
147. Uso de antidepressivos ou antipsicóticos
148. Uso de aspirina e outros antiagregantes plaquetários (ex.: clopidogrel)
149. Útero bicorno
150. Útero retrovertido
151. Vaginose bacteriana
152. Varizes na vulva e/ou vagina
153. Violência urbana, impedindo obstetra (famoso) de sair de casa à noite ou alegada como pretexto para que as gestantes também não sigam o perigoso percurso até a maternidade
Nota: infelizmente isto não é piada. Agradeço a contribuição das gestantes, dos colegas, dos médicos residentes e dos políticos que me mandam bilhetinhos estapafúrdios indicando cesarianas por motivos os mais exóticos, e recentemente a Gisele Leal que compilou mais indicações informadas pelas mulheres dos grupos do Facebook.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Qual a diferença entre parto vaginal e parto natural?

A primeira vista, parece que os dois termos são sinônimos, não é mesmo? Tendemos a acreditar que existem apenas duas opções para o nascimento de um bebê: cesariana ou parto normal.
O parto vaginal é aquele, como o próprio nome remete, acontece pela vagina porém pouco dele é realmente normal. São partos que têm o pressuposto da medicalização, passando por intervenções muitas vezes desnecessárias. Posição restrita ou deitada, jejum, hormônio sintético, manobras, episio, puxos dirigidos ... o rol de procedimentos é extenso. Parte dessas intervenções pode até ser necessária, o problema é o uso padronizado e indiscriminado. A maioria das mulheres que me relataram partos normais traumáticos foram vítimas desses procedimentos que não respeitaram o tempo do trabalho de parto nem a autonomia da mulher e seu corpo.
No parto natural a lógica é da intervenção mínima e quando necessária. A mulher tem possibilidade de realmente conduzir sua experiência de parto e no tempo demandado pelo seu corpo e do bebê. Não se trata de parto desassistido, mas sim visto como fisiológico e sem o princípio intervencionista.
Milena Araguaia - a Raposa

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Intervenções de parto

Quais são as principais intervenções de parto que as mulheres sofrem?
Gente, esse post é apenas um resumo bem resumidinho mesmo das principais intervenções que as mulheres sofrem quando decidem ter um parto normal. Vale a pena pesquisar e aprofundar um pouquinho em cada uma delas, para que você seja capaz de entender exatamente o que cada uma dessas intervenções faz e, na hora do trabalho de parto, ser capaz de escolher conscientemente o que quer que seja feito ou não.

1.       Administração de ocitocina sintética. A ocitocina sintética é utilizada para induzir ou acelerar o trabalho de parto. A principal consequência negativa é que as contrações vêm muito mais frequentes e doloridas, o que aumenta a chance de a mãe desistir do parto normal e de o bebê entrar em sofrimento fetal. Para ler mais e entender melhor, clique aqui: http://douladebrasilia.blogspot.com.br/2015/08/os-hormonios-do-parto.html
2.       Analgesia. A princípio, parece uma ideia maravilhosa. Parir uma criança sem sentir dor, quem não quer? E olha que os bons anestesistas conseguem aplicar uma dose tão pequena que a gente ainda é capaz de sentir as contrações, mas com bem menos dor. O problema é que a gente pode até sentir as contrações, mas não sente os “puxos”, que são aquela vontade doida de fazer força no período expulsivo, uma força que você faz naturalmente porque não consegue deixar de fazê-la. Com analgesia, você não sabe quando com como fazer força, e aí o expulsivo tende a ser mais longo e difícil, a mulher fica exausta porque faz muita força de modo não efetivo para expulsão do bebê. Isso acaba levando às intervenções 3 e 4.
3.       Kristeller. Uma das maiores atrocidades do nosso sistema obstétrico. É quando o médico ou enfermeira “sobem” em cima da barriga da mulher, empurrando o bebê para que ele desça. Todas as evidências científicas condenam o método e na maioria dos partos ele não é usado, mas volta e meia ouço o relato de um profissional desatualizado que aplicou esse método desastrado. Gente, o bebê tem seu próprio processo no expulsivo. Ele vai, aos pouquinhos, achando o caminho dele, descendo, encaixando. Quando você empurra ele de uma vez, isso vai certamente machucar tanto mãe quanto bebê, aumentando gravemente os riscos de hemorragia e lacerações graves!
4.       Episiotomia. Não há qualquer evidência científica de que a episiotomia (corte na vagina da mulher) diminua o tempo do período expulsivo, e é essa a desculpa com que ela é usada. A maioria dos médicos usa episio de rotina! Para ler mais e entender melhor, clique aqui: http://douladebrasilia.blogspot.com.br/2015/08/e-episiotomia.html

5.       Puxar o cordão para a placenta sair logo. A placenta deve ser parida após o bebê nascer. A mulher volta a sentir algumas contrações e expulsa a placenta que, na maioria dos casos, sai inteira e linda. Algo que ajuda muito nesse processo é colocar o bebê no seio para mamar, mas como na maioria dos hospitais, principalmente os particulares, ainda se separa logo o bebê da mãe, perde-se esse momento tão especial. O problema é que puxar a placenta aumenta os riscos de ficar algum pedacinho dela lá dentro, de ela “quebrar”, e aí os riscos de hemorragia e infecção são bem maiores.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Nascimento de Mallu

Conheci a Ludy pelo facebook, já beeeem no finalzinho da gravidez, justamente procurando respostas sobre os sinais do trabalho de parto. Ontem, por volta das 21h, ela me avisou que estava com dores e sangrando um pouco. Chegou ao hospital de Sobradinho com 4cm de dilatação e já foi internada. O marido, Paulo, tentou, ela tentou, mas não teve jeito: eles não deixam a doula entrar, a não ser que o acompanhante saia. Então tive que me contentar em doular virtualmente, bendito whatsapp! Gravei alguns áudios de encorajamento pra ela, explicando como lidar com as contrações, e fui me comunicando com ele, tirando as dúvidas e ensinando o que ele poderia fazer para amenizar as dores dela. Às 5:50 mensagem dele me contando que ela havia entrado na partolândia (que eu expliquei direitinho pra ele o que era antes). Às 6:30 ele parou de responder ao celular. Às 6:54, recebi a mensagem da alegria, dizendo que a pequena e linda Mallu (olha essa boquinha, gente! Parece que passaram batom!) já estava fora da barriga, e que ela e a super mamãe Ludy estavam bem.
Parabéns, Ludy! Parabéns, Paulo! Tenho certeza de que, depois desse parto, a conexão entre vocês está ainda mais forte, e que Mallu terá pais maravilhosos! Boa lua-de-leite, e contem comigo para o que precisarem!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Por que o parto normal é melhor para o bebê?

Por que o parto normal é melhor para o bebê?

1.       O trabalho de parto faz com que o bebê produza o cortisol, o hormônio do estresse. Se nos seres humanos o excesso desse hormônio traz diversas consequências negativas, no bebê ele vai atuar deixando os pulmões prontos para respirar.

2.       Ao passar pelo canal vaginal, o tórax do bebê é comprimido, o que facilita a expulsão de líquido amniótico de dentro dos pulmões, facilitando a primeira respiração.

3.       O risco de precisar de uma UTI é 4 vezes menor se o bebê nasce por parto normal.

4.       A certeza de que o bebê está pronto para nascer. Os pulmões do bebê só amadurecem nas últimas semanas de gestação e, quando não há o início do trabalho de parto, corre-se o risco de que o bebê nasça antes de esse amadurecimento ser completo, o que pode gerar graves problemas respiratórios.

5.       Ao passar pelo canal vaginal da mãe, o bebê entra em contato com as bactérias maternas, o que ativa seu sistema imunológico e promove maior resistência a alergias.

6.       As alterações hormonais da mãe beneficiam o bebê de forma que ele se torna mais ativo e responsivo ao nascer. Os bebês que nascem de parto normal e não têm o cordão umbilical cortado, se forem colocados no colo da mãe, se arrastam até o seio para mamar sem precisar de nenhuma ajuda.


7.       Durante a passagem pelo canal vaginal, o bebê é ‘apertado’, despertando a criança para o toque, o que faz com que ela estranhe menos o toque dos médicos e enfermeiros.



domingo, 2 de agosto de 2015

Os hormônios do parto

O trabalho de parto envolve, como o próprio nome diz, muito trabalho. Todo o corpo se foca em trazer à luz aquele pequeno ser. Mas você sabe qual é a parte do nosso corpo que mais trabalha na hora de parir? Nosso CÉREBRO! Faz sentido, né?! Afinal, é ele quem vai comandar as contrações, acionar e liberar os hormônios necessários, enfim, quem vai ditar todo o processo. Hoje vamos falar um pouquinho sobre esses hormônios, especialmente sobre a ocitocina.
Essa foto é do trabalho de parto do meu segundo filho. Eu gosto demais dela! Porque olhando assim, sem saber o contexto, fica bem difícil definir se essa cara é de prazer ou de dor. E é isso que acontece no parto, dor e prazer misturam-se constantemente!
O primeiro e mais famoso hormônio envolvido no parto é a nossa querida OCITOCINA. Se fosse possível elaborar uma droga do amor, ela com certeza seria o principal ingrediente. É ela a responsável por potencializar as contrações do útero, tornando-as fortes, efetivas e ritmadas até que o bebê nasça. Esse hormônio mágico também é responsável pela expulsão da placenta após o nascimento da criança, pela contração de células no seio para tornar possível a saída do leite . Quando há processos de indução ou tentativas de acelerar o trabalho de parto, é ministrada à mulher a ocitocina sintética. É claro que ela não vai atuar da mesma forma que a ocitocina naturalmente produzida! Vamos às principais diferenças:
a. O organismo diminui o número de receptores diante da ocitocina sintética, para prevenir um excesso de estimulação, o que aumenta os riscos de hemorragia, já que sua própria ocitocina será reduzida.
b. A ocitocina natural penetra na placenta e “desliga” um pouco o cérebro do bebê para reduzir a necessidade de oxigênio, o que a ocitocina sintética não é capaz de fazer e por isso seu uso tem maior chance de causar sofrimento fetal.
c. As contrações são até três vezes mais fortes do que as geradas pela ocitocina natural, sendo também mais longas e com intervalo mais curto entre elas. Isso pode fazer com que a mãe libere adrenalina, travando a progressão do trabalho de parto.
Depois do nascimento, os níveis de ocitocina ficam ainda maiores! Isso ajuda a proteger a mãe, porque faz com que o útero se contraia, evitando hemorragia. Mas esses altíssimos níveis de ocitocina logo após o parto têm uma função emocional muito importante: estabelecer o vínculo entre a mãe e o bebê. É ela quem gera aquele amor que te faz chorar só de olhar para o serzinho que saiu de dentro de você. E assim o que era potencialmente um evento traumático devido à sua intensidade – o parto – é ressignificado em uma experiência de amor, envolvimento, superação, felicidade..
No final de cada contração, o organismo libera endorfinas, que geram o relaxamento. Se a ocitocina é o hormônio do amor, a endorfina é, sem dúvida, o hormônio do prazer. É ela quem propicia uma sensação de euforia, mas também é uma espécie de anestésico natural. Nosso organismo é realmente muito sábio! Entre as contrações, que são fortes e doloridas, vem aquela sensação boa de relaxamento, semelhante àquela que experimentamos logo após uma atividade física intensa ou um orgasmo. Assim, o próprio organismo se encarrega de “compensar” a dor do parto. Então a verdade é que fala-se muito da dor do parto, mas só quem já passou pela experiência pode dizer que também há, em um parto natural, muito prazer envolvido.
Também está presente no parto um hormônio chamado prostraglandina, responsável pelo apagamento e dilatação do colo do útero. Já ouviram falar que sexo no final da gravidez estimula o trabalho de parto? Isso acontece por dois fatores: o orgasmo feminino gera contrações do útero e o sêmen contém prostraglandinas, que podem favorecer o início do trabalho de parto.
Ao longo do trabalho de parto, a grande vilã é a adrenalina. Se ela está presente em grande quantidade, atrapalha muito a liberação dos hormônios que fazem com que o trabalho de parto progrida. Porém, no final do trabalho de parto, no período que chamamos de expulsivo, há uma brusca elevação da adrenalina. As mulheres tendem a ficar em posição vertical, com uma súbita energia, sentindo a necessidade de se agarrarem a pessoas ou objetos. Essa adrenalina faz com que a mãe fique especialmente alerta após o nascimento do filho, uma questão evolutiva para a proteção do recém-nascido.
Para que esses hormônios do parto sejam liberados adequadamente, é preciso que o seu sistema límbico esteja ativo. O sistema límbico é o nosso cérebro mais primitivo, mais instintivo e, para que ele atue adequadamente é necessário que a mulher esteja relaxada, desligada de preocupações. Isso explica porque muitos trabalhos de parto se iniciam de madrugada, né?! Mas aqui reside também um grande segredo: se, no decorrer do trabalho de parto, a mulher se sente assustada, observada, preocupada, esse sistema límbico dá uma “travada” e os hormônios deixam de ser liberados adequadamente. Aí a gente entende porque muitas vezes o trabalho de parto está progredindo maravilhosamente em casa e, quando a mulher chega ao hospital, as contrações param do nada – ela saiu de um ambiente onde se sente segura e tranquila para um ambiente muito iluminado, movimentado, com ruídos e onde está constantemente sendo observada. O que uma mulher em trabalho de parto precisa para que seus hormônios sejam adequadamente liberados é, portanto, privacidade, penumbra, sensação de segurança e silêncio .
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Indicações reais, possíveis e fictícias de cesarianas

ALERTA DE POST MEGA SUPER ULTRA IMPORTANTE!!!!
Hey, gravidinhas e gravidinhos do meu Brasil! O post de hoje é essencial para quem não quer cair no conto do vigário da desneCESÁREA, ou seja, fazer uma cesárea sem que haja real necessidade para isso. Vou colocar aqui para vocês um post do blog "estuda, Melânia, estuda", da médica Melânia Amorim, uma excelente obstetra que trabalha há anos com parto humanizado. Temos, então, uma lista bem completa de indicações REAIS de cesariana, ou seja, casos em que ela é de fato necessária; POSSÍVEIS indicações, ou seja, quando a cesárea pode ser necessária e como ela é usada como desculpa às vezes; DESCULPAS ESFARRAPADAS que os médicos comumente usam para fazer cesárea, mas que não são indicações reais. Leiam mil vezes!
INDICAÇÕES REAIS E FICTÍCIAS PARA A CESÁREA
Algumas indicações de cesariana
REAIS
1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;
2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;
3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);
4) Apresentação córmica (situação transversa) - durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);
5) Ruptura de vasa praevia;
6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto (em algumas diretrizes, somente se for a primoinfecção herpética).
PODEM ACONTECER, PORÉM FREQUENTEMENTE SÃO DIAGNOSTICADAS DE FORMA EQUIVOCADA
1) Desproporção cefalopélvica (DCP): o diagnóstico só é possível intraparto e não pode ser antecipado durante a gravidez. Em 1934 um obstetra (Barbour) já dizia que "o melhor pelvímetro é a cabeça fetal", e é avaliando a progressão da cabeça fetal através do canal de parto na presença de contrações eficientes que pode ser aventada a suspeita de DCP;
2) Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é "frequência cardíaca fetal não-tranquilizadora", exatamente para evitar diagnósticos equivocados baseados tão-somente em padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal);
3) Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais (correção da hipoatividade uterina, amniotomia): recentemente tanto autores como diretrizes concordam que os critérios devem ser mais elásticos. O próprio uso de ocitocina e a amniotomia não têm efetividade comprovada quando comparados com a conduta expectante;
Pela grande variação do que é fisiológico, considera-se que não é necessário intervir para apressar um parto, independente de sua duração, quando mãe e bebê estão bem.
Nota: o uso do partograma de Friedman é altamente questionável. A curva de evolução do trabalho de parto tem grande variação, recomendando-se atualmente a curva de Zhang (2010), com percentis. Outras curvas em outras populações estão sendo estudadas.
SITUAÇÕES ESPECIAIS EM QUE A CONDUTA DEVE SER INDIVIDUALIZADA, CONSIDERANDO-SE AS PECULIARIDADES DE CADA CASO E AS EXPECTATIVAS DA GESTANTE, APÓS INFORMAÇÃO
1) Apresentação pélvica (recomenda-se oferecer versão cefálica externa depois de 36 semanas mas se não for bem sucedida ou não for aceita pela gestante, discutir riscos e benefícios: o parto pélvico só deve ser tentado com equipe experiente e se for essa a decisão da gestante);
2) Duas ou mais cesáreas anteriores (o risco potencial de uma ruptura uterina – variando de 0,5% - 1% - deve ser pesado contra os riscos de se repetir a cesariana, que variam desde lesão vesical até hemorragia, infecção e maior chance de histerectomia); as diretrizes mais recentes não discriminam entre uma ou duas cesáreas para quem quer tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean = Parto Vaginal Após Cesárea);
3) hiv/aids (cesariana eletiva indicada se HIV + com contagem de CD4 baixa ou desconhecida e/ou carga viral acima de 1.000 cópias ou desconhecida); em franco trabalho de parto e na presença de ruptura de membranas, individualizar casos.
Algumas desculpas utilizadas pelos profissionais para realizar uma DESNEcesárea (em ordem alfabética)
1. Abdominoplastia prévia
2. Aceleração dos batimentos fetais
3. Adolescência
4. Ameaça de chuva/temporal na cidade
5. Anemia falciforme
6. Ameaça de parto prematuro (?)
7. Anemia ferropriva
8. Anemia de qualquer tipo (entendam, gestantes, a cesariana vai agravar a anemia, uma vez que a perda sanguínea é cerca de 500ml no parto normal e 1.000ml na cesariana)
9. Anencefalia
10. Anticoagulação (uso de warfarin que já deveria estar suspenso a termo, uso de heparina de baixo peso molecular, uso de heparina convencional)
11. Artéria umbilical única
12. Asma
13. Assalto ou outras formas de violência (gestante ou familiar foi vítima de assalto, então o bebê pode ficar estressado)
14. Acidente Vascular Cerebral (AVC) prévio
15. Bacia "muito estreita"
16. Baixa estatura materna
17. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso
18. Bebê alto, não encaixado antes do início do trabalho de parto
19. Bebê profundamente encaixado
20. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
21. Bebê "grande demais" (macrossomia fetal só é diagnosticada se o peso é maior ou igual que 4kg e não indica cesariana, salvo nos casos de diabetes materno com estimativa de peso fetal maior que 4,5kg. Não se justifica ultrassonografia a termo em gestantes de baixo risco para avaliação do peso fetal).
22. Bebê "pequeno demais"
23. Bebê engolindo o líquido amniótico
24. Bebê flagrado apertando o cordão durante a ultrassonografia, o que aparentemente levou a bradicardia
25. Bilhete ou telefonema do prefeito/secretário de saúde de município próximo – Bilhete de qualquer político
26. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe)
27. Calcificação da sínfise púbica (alegando-se que ocorreria em TODAS as mulheres com mais de 35 anos, impedindo o parto normal)
28. Candidíase
29. Cardiopatia (o melhor parto para a maioria das cardiopatas é o vaginal)
30. Cegueira materna
31. Ceratocone
32. Cesárea anterior
33. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma
34. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultrassonografistas e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso)
35. Cirurgia gastrointestinal prévia
36. Colestase gravídica
37. Coleta de sangue do cordão umbilical para congelamento e preservação de células-tronco
38. Colo grosso, colo posterior, colo duro, colo alto e (paradoxalmente) colo curto
39. Colostomia (sim, porque é melhor fazer uma incisão abdominal perto do estoma com fezes do que um parto normal bem distante da área...)
40. Conização prévia do colo uterino
41. Condilomas (verrugas genitais) que não provocam obstrução do canal de parto.
42. Constipação (prisão de ventre)
43. Cordão curto (impossível a mensuração antes do nascimento)
44. Cálculo renal (nefrolitíase)
45. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas (incluindo aniversário do obstetra)
46. Datas significativas como 11/11/11 ou 12/12/12 (ainda bem que a partir de 2013 precisaremos esperar o próximo século mas ainda inventam outras...)
47. Diabetes mellitus clínico ou gestacional
48. Diagnóstico de desproporção cefalopélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto e antes da dilatação de 8 a 10 cm
49. Disfunção da sínfise púbica
50. Dorso à direita, dorso posterior, ou dorso em qualquer outro lugar
51. Edema de membros inferiores/edema generalizado
52. Eletrocauterização prévia do colo uterino
53. Endometriose em qualquer grau e localização
54. Enxaqueca materna
55. Epilepsia e uso de qualquer droga antiepiléptica
56. Escoliose
57. Espondilite anquilosante – Qualquer espondiloartropatia
58. Estreptococo do Grupo B (EGB) no rastreamento com cultura anovaginal entre 35-37 semanas
59. Exérese prévia de pólipos intestinais por colonoscopia
60. Falta de dilatação antes do trabalho de parto
61. Falta de vagas nos hospitais se a gestante não marcar a cesárea
62. Feto com “unhas compridas”
63. Feto morto
64. Fibromialgia
65. Fratura de cóccix em algum momento da vida
66. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come)
67. Gestação gemelar com os dois conceptos, ou o primeiro, em apresentação cefálica
68. Gestante saudável demais, correndo o risco de ter um parto fácil e muito rápido, podendo parir antes de chegar ao hospital, com risco de morte do bebê
69. Gravidez não desejada
70. Gravidez prolongada
71. Grumos no líquido amniótico
72. Hemorroidas
73. Hepatite B e Hepatite C
74. Hérnia de disco, operada ou não, em qualquer segmento da coluna vertebral
75. Hérnia inguinal, hérnia incisional e hérnia umbilical
76. Hiperprolactinemia
77. Hipertireoidismo
78. Hipotireoidismo
79. História de cesárea na família
80. História de câncer de mama ou câncer de mama na gravidez
81. História de depressão pós-parto
82. História de natimorto ou óbito neonatal em gravidez anterior
83. História de trombose venosa profunda
84. História familiar de fibrose cística do pâncreas
85. HPV com ou sem NIC
86. Idade materna “avançada” (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral refere-se às mulheres com mais de 35 anos. Há pouco tempo a fisioterapeuta que faz parte de nossa equipe foi considerada "idosa"por um plantonista de certa maternidade que não me convém indicar...
87. Incisura nas artérias uterinas (pesquisada inutilmente, uma vez que não se deve realizar oplervelocimetria em uma gravidez normal)
88. Incontinência urinária de esforço ou estar fazendo muito xixi no final da gravidez
89. Infecção urinária
90. Inseminação artificial, FIV, qualquer procedimento de fertilização assistida (pela ideia de que bebês “superdesejados” teriam melhor prognóstico com a cesárea) – motivo pelo qual esses bebês aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal
91. Insuficiência istmocervical (paradoxalmente, mulheres que têm partos muito fáceis são submetidas a cesarianas eletivas com 37 semanas SEM retirada dos pontos da circlagem)
92. Insuficiência Renal Aguda ou Crônica
93. Jogo do Atlético x Cruzeiro (mas pode substituir por Flamengo x Fluminense, Grêmio x Internacional ou qualquer clássico de sua cidade), afetando o tráfego urbano
94. Laparotomia prévia
95. Lesão medular (habitualmente acarretando paralisia: tetraplegia, paraplegia, hemiplegia, diplegia, dependendo do nível da lesão): essas mulheres em geral são cadeirantes e podem ter partos sem dor, mas o diagnóstico não é indicação de cesárea!
96. Líquido amniótico em excesso
97. Lúpus eritematoso sistêmico (LES)
98. Magreza da mãe
99.Malformação cardíaca fetal
100. Mecônio no líquido amniótico (só indica cesariana se houver associação com padrões anômalos de frequência cardíaca fetal, sugerindo sofrimento fetal)
101. Mioma uterino (exceto se funcionar como tumor prévio)
102. Miscigenação racial (pelo “elevado risco” de desproporção céfalo-pélvica)
103. Neoplasia intraepitelial cervical (NIC)
104. Nó verdadeiro de cordão (impossível o diagnóstico antenatal, sorry)
105. Obesidade materna
106. Paciente “não tem perfil para parto normal”
107. Paciente “não ajuda para o parto normal” (momento vidente ON: “no fundo ela quer cesárea”)
108. Parto “prolongado” ou período expulsivo “prolongado” (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra). O diagnóstico deve se apoiar no partograma. O próprio ACOG só reconhece período expulsivo prolongado mais de duas horas em primíparas e uma hora em multíparas sem analgesia ou mais de três horas em primíparas e duas horas em multíparas com analgesia. Na curva de Zhang o percentil 95 é de 3,6 horas para primíparas e 2,8 horas para multíparas)
109. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas)
110. Perineoplastia anterior
111. Pé (do feto) nas costelas
112. Pé torto congênito
113. Placenta grau III ou II ou I ou qualquer outra classificação placentária
114. Placentas baixas não oclusivas do colo do útero
115. Plaquetopenia
116. Pólipos uterinos
117. Possível falta de vaga em maternidade para um parto normal, caso a gestante não marque a cesárea
118. Pouco líquido no exame ultrassonográfico (sem indicação no final da gravidez em gestantes normais)
119. Praticar musculação ou ser atleta
120. Pressão alta
121. Pressão baixa
122. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia, grande miopia, ceratocone e descolamento da retina
123. Profissão professora
124. Prolapso de valva mitral
125. Prótese total de quadril
126. Prurido gestacional
127. Qualquer malformação fetal incompatível com a vida
128. Qualquer procedimento cirúrgico durante a gravidez
129. Queloide ou tendência a queloide podendo complicar uma episiotomia (e a cesárea não? E para que fazer episiotomia?)
130. Reação vasovagal
131. Sedentarismo
132. Septo uterino/cirurgia prévia para ressecção de septo por via histeroscópica
133. Ser bailarina
134. Sono fetal (bebê que dorme durante o trabalho de parto)
135. Suspeita ecográfica de mecônio no líquido amniótico
136. Síndrome de Down e qualquer outra cromossomopatia
137. Síndrome de Ovários Policísticos (SOP)
138. Tabagismo
139. Trabalho de parto prematuro
140. Trânsito urbano muito intenso
141. Tricomoníase
142. Trombofilias
143. Trombose venosa profunda
144. Varizes uterinas
145. Varizes em membros inferiores
146. Varizes na vulva
147. Uso de antidepressivos ou antipsicóticos
148. Uso de aspirina e outros antiagregantes plaquetários (ex.: clopidogrel)
149. Útero bicorno
150. Útero retrovertido
151. Vaginose bacteriana
152. Varizes na vulva e/ou vagina
153. Violência urbana, impedindo obstetra (famoso) de sair de casa à noite ou alegada como pretexto para que as gestantes também não sigam o perigoso percurso até a maternidade
Nota: infelizmente isto não é piada. Agradeço a contribuição das gestantes, dos colegas, dos médicos residentes e dos políticos que me mandam bilhetinhos estapafúrdios indicando cesarianas por motivos os mais exóticos, e recentemente a Gisele Leal que compilou mais indicações informadas pelas mulheres dos grupos do Facebook.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

E está chegando...

As mães que optam por deixar seus filhos virem ao mundo por parto normal tem um final de gestação um tanto conturbado. O "elemento-surpresa" - ninguém sabe quando as coisas vão acontecer - costumam encher as mães de ansiedade a partir das 38 semanas. O que fazer?

- Lembrar que a gravidez pode ir até as 42 semanas. E se pode ir até as 42 semanas, faça de conta que o bebê só pode chegar com 42 semanas, imagine o fim das 42 como sendo a data da sua cesárea, ou algo assim. Eu sei que a gravidez dura 8 meses e 1 eternidade, mas trabalhe sempre com o foco na data mais distante possível.

- Aproveite para verificar os detalhes do plano de parto. Onde você vai ganhar neném? Quem vai te acompanhar nessa empreitada? Quem vai dirigir? Os telefones do médico e do hospital estão à mão? Tem comidinhas fáceis para serem contrabandeadas para dentro do hospital (alguns insistem em não deixar a mulher em TP comer, prática antiquada e desnecessária que comento futuramente)? Se já tem outros filhos, quem vai ficar com as crianças?

- Aproveite para cuidar dos últimos detalhes para a chegada da criança. As malas para a maternidade já estão prontas? As roupinhas de recém-nascido já estão lavadas e passadas? As fraldas e produtos de higiene estão todos comprados?

- Exercite-se. A ansiedade costuma travar o trabalho de parto. Então, se estiver difícil de controlar, aproveite para caminhar, em ritmo de exercício mesmo, nadar, enfim, qualquer coisa que te ajude a tirar a tensão.

- Pratique os 3 "hots" (quentes). Comida quente (apimentada), banhos quentes e sexo quente. Dizem por aí que são excelentes indutores naturais do parto. No caso do sexo quente, o efeito é muito melhor se a mulher tem orgasmos... hummmmm...

- Se nada estiver adiantando e o raio do trabalho de parto não chegar nunca, experimente conversar com seu bebê dentro da barriga e explicar porque quer que ele saia logo. Eu escrevi inclusive uma longa carta para a Alice, que nasceu com 40 semanas e 6 dias (ufffff). Ela chegou no dia seguinte!

E é isso. 5 dicazinhas simples, mas que dão uma forcinha no final da gestação. Mantenha o foco! =]

quarta-feira, 7 de março de 2012

O parto e a montanha russa

"Tem gente que acha loucura sentir dor para parir.

Muitas coisas na vida são mais loucas e as pessoas fazem. E sem que haja bem estar algum em jogo. Pense no seu parto como se fosse um passeio de montanha russa. Essa foi a melhor metáfora que encontrei! Imagine a sua gestação como uma daquelas filas enormes em dia de excursão de escola no Playcenter. No verão. Você ali esperando aquela fila se deslocado devagar... muito devagar. Você cansada, os pés doendo. Você vê gente com medo, apreensiva. Gente empolgada que descreve como vai ser para quem nunca andou. E você ali. Sem saber o que esperar. Você também escuta alguns: você é louca! Andar nisso aí??? Nunca!!! Você não viu aquela montanha russa lá em Ximbiquinha do Sudoeste que quebrou e matou todo mundo? E o pior foram os que ficaram mutilados pro resto da vida!

Você faz ouvido mouco e continua ali. Avançando devagarinho. Não tem pra onde ir, é tarde pra pular fora, as grades que separam a fila são altas, só dá pra seguir em frente. Aí você vê quem está saindo, gente meio tonta, com uma expressão que você não entende, cambaleando, passando mal. E você pensa: onde é que eu fui me meter?

Quando você está chegando perto o cansaço está maior, você tem que ficar encostada quase o tempo todo. Ai, não chega nunca. Pra melhorar no finalzinho ainda tem uma baita escada pra subir na plataforma de embarque. Bem que podia ter uma escadazinha rolante aqui...Você chega na ultima parte da fila. De repente parece que toda aquela morosidade foi embora. A fila anda muito mais rápido agora. Ou será que você é quem acha isso porque a hora de embarcar está se aproximando? Subir as escadas exige um esforço extra. Parece que seu peso aumentou uns quinze quilos.

Você não sabe se é o calor, o tempo de pé, ou se foi aquele combo gigante de hambúrguer fritas e balde de refrigerante que estão pesando.

Mas você sobe, um degrau de cada vez. E o topo vai se aproximando. É quando você avista: tem uma saída de emergência lá em cima. Saída estratégica pela esquerda. Acho que é nessa que eu vou! Mas aí você pensa. Já vim até aqui... e se for tudo o que dizem mesmo? Como é que eu vou saber? Que o destino decida então: vou jogar uma moeda. Se der cara eu vou. Cara! Melhor de três então. Cara de novo. Ai, ai... Continua avançando. Ah, se aquela mocinha desmilinguida embarcar, eu vou também. Se ela consegue eu também. Ela embarca.

Ok, acho que vou. a não ser é claro que chova. Se não for totalmente seguro não vou. E eu acho que estou vendo uma nuvenzinha lá longe. Se o carrinho que vier for vermelho também não! Vermelho me dá um azar! E eu não vou arriscar. Sua vez está chegando, você já vai chegar na plataforma. Uma moça amarela bem na sua frente, sai correndo pela saída de emergência. Você se estica e consegue enxergá-la lá embaixo, na saída da lojinha... tem alguma coisa na mão, mas o olhar parece meio distante. Eu vou! Não quero ficar imaginando como teria sido.

Chega a sua vez. O coração sobe na boca. O fôlego fica suspenso alguns instantes. Mas você respira fundo e sobe no carrinho. E pensa: ainda bem que não era um vermelho!

A viagem começa devagarinho. Tec tec tec. O carrinho vai subindo devagar. Tranquilo. Não é tudo aquilo! Que povo medroso! Dá até pra tirar a mão. Ainda bem que não desisti! A brisa no rosto. A paisagem tão linda. Ainda bem que fui forte!


Sobe, sobe, sobe. Puxa, mas que alto... dá uma vertigem de leve... De repente você se vê no final da subida. C******, que altura, ai, eu vou morrer. Me deixa descer, me deixa sair daqui. F***** da P*** daquela professora que yoga que disse que eu não ia me arrepender. Se estivesse aqui agora, eu matava!!! Será que aquela doula ia fazer muita diferença segurando aqui a minha mão??? Bando de louca... ah, eu mato se eu sair viva daqui! E a minha prima, aquela V*** que me convenceu a vir. Vai ser legal, você vai ver, você vai querer ir de novo. Ai, eu mato, eu mato. Cadê ela? Porque não está aqui? Duvido que quando ela andou foi nessa tão alta, aposto que foi na menor!!!

E vem a descida. O looping, uma subidinha, curva, mais curva, outra curva. Você já não está vendo nada direito, está meio tonta, parece meio fora de si. Tem mais gente gritando, ou será que é você mesma? Está doendo tudo, esse bate bate no carrinho vai doer ainda mais amanhã. Vai parecer que fui atropelada.. . Você nem sabe mais se está de ponta cabeça. Dá medo de olhar. Você espia, fecha o olho de novo. Não quero nem ver. Não vou olhar. Se eu olhar é pior!

Vai chegando no final. O carrinho desacelera. Você está meio abobada, grogue. Alguém ajuda a descer. Você nem vê quem é. Podia ser o Brad Pitt e você não ia nem notar. Seu cabelo está parecendo uma piaçava depois da faxina, mas você esqueceu de prendê-lo. E agora nem lembra mais que tem cabelo. Mas tem alguma coisa diferente. Algo a mais em você. Vim, vi e venci. Sou praticamente um Julio Cesar! Suas pernas cambaleiam um pouco, mas você anda. A brisa bate e aos poucos você se recobra. Levanta a cabeça e sorri. Era só isso? Porque tive tanto medo?

Vou pra fila de novo!

Quem já andou de montanha russa sabe do que estou falando. Quem passou por um trabalho de parto também.

E você, já andou de montanha russa?"


Katia Barga
(louca de pedra)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sete razões para não marcar o seu parto

Retirado de "a maequequeroser.wordpress.com

Compreendo a opção pela cesárea; entendo de onde vem o receio de parir um bebê, sei da falta de informação e de apoio (do médico, da família, da sociedade) ao parto normal e me conformei com a visão vigente de que a via cirúrgica é uma alternativa aceitável. O que não entendo e não vou aceitar nunca é a banalização das cirurgias agendadas sem indicação, às vezes com 36 semanas, como no caso de uma amiga virtual de Facebook, que revelou seu desespero ao saber que sua cunhada, por sugestão do obstetra, havia agendado sua cesária para antes das 37 semanas. Essa criança provavelmente nascerá prematura, precisará passar tempo na UTI neonatal, terá dificuldades iniciando a amamentação, receberá complemento… Enfim, sua vida não terá um começo fácil. O mais triste é que tudo poderia ter sido evitado se seus pais tivessem esperado sua hora de nascer.

Abaixo, ofereço sete motivos para você esperar os primeiros sinais de que o seu bebê esteja pronto para vir ao mundo ao invés de cair no conto do vigário (ou seja, do “lobo cesarista”) e marcar uma cesárea “de emergência” para daqui a uma semana (isso não é emergência – é conveniência, tá?).

1. Saúde

A saúde sempre vem em primeiro lugar, não é mesmo? Toda mãe deseja, antes de mais nada, que o filho seja saudável. Todo obstetra se orgulha em dizer que preza pela saúde do bebê (muitos até usam isso como desculpa para desencorajar o parto normal, o que é uma ignorância e uma covardia sem tamanho, mas isso é outra história). A literatura médica é categórica: cesáreas eletivas feitas antes de completar 39 ou 40 semanas aumentam significativamente (entre 300 e 500%) o risco de problemas de saúde no bebê, especialmente respiratórios (que podem persistir durante toda a infância), mas também de icterícia (que dá ao recém-nascido um aspecto amarelado e está relacionado ao acúmulo de bilirrubina no sangue) e dificuldades para amamentar. Para todo bebê que nasceu “sem sequelas” numa cesárea de 37 semanas (que não é considerado prematuro, mas que poderia ter ido até 40, 41 ou 42 semanas – ou seja, é sim pré-termo), há vários que precisaram de ficar “em observação” por dificuldades respiratórias ou precisaram receber complemento no berçário ou que precisaram de fototerapia por icterícia e achamos isso “normal” porque, infelizmente, a prematuridade tardia (entre 34 e 36 semanas +6 dias) e o a termo precoce (entre 37 e 39 semanas) se tornaram comuns na nossa sociedade. Porém as evidências demonstram algo inconveniente: os males de saúde aumentaram depois que nós começamos a adiantar o nascimento dos nossos filhos. O que me leva, necessariamente, ao próximo ponto.

2. Ética

Clamamos por um mundo com muito mais ética. Demandamos isso dos políticos e dos empresários, mas, por alguma razão, simplesmente acreditamos piamente na ética do nosso médico. De certo modo, faz sentido. Afinal, o médico é alguém que escolheu preservar e proteger a vida e, teoricamente, por uma causa nobre. Fez o milenar juramento hipocrático, onde promete “não causar dano ou mal a alguém”. A verdade, pelo menos na obstetrícia, não é bem assim. A prematuridade iatrogênica (causada pelo procedimento médico e não natural – ou seja, por partos agendados) está aumentando assustadoramente. É por causa dela que os índices de prematuridade são muito maiores nas regiões sul e sudeste (curiosamente, aonde tem mais cesáreas). Infelizmente, a lei do mercado se sobrepôs ao juramento de não fazer mal e muitos médicos (não todos, mas muitos) – para maximizarem seus rendimentos e para não precisarem acordar de madrugada nem deixarem de viajar no feriado – agendam partos na 37a semana, mesmo conhecendo as estatísticas acima. Há uma falta de punição para esse tipo de comportamento e, portanto, cada vez mais profissionais agem desta maneira condenável. Se você acredita na ética e no que é correto, você pode ajudar o seu médico a não desrespeitar o juramento que fez e não concordar em marcar uma cesárea antes da data. E lembre-se: mesmo que 37 semanas não seja considerado prematuro, a não ser que você tenha feito tratamento para engravidar e saiba exatamente o dia em que ovulou e/ou engravidou, a idade gestacional do seu filho é meramente uma estimativa. Uma gestação a termo é 40-42 semanas (somente depois de 42 semanas é que o bebê é considerado pós-termo).

3. Respeito

Como relatei no post O nascimento, do ponto de vista do sujeito, o bebê não é um mero produto do parto, mas um agente ativo. É ele quem envia os sinais para o cérebro da mãe, assim iniciando o trabalho de parto. O anúncio (ao lado) da ONG americana March of Dimes, instituição empenhada em melhorar a saúde materna e infantil, mostra claramente como algumas semanas fazem uma diferença enorme no desenvolvimento do cérebro fetal. Portanto, fica claro que agendar um parto é desrespeitoso à fisiologia do bebê. Sem contar que, muitas vezes, na hora da cirurgia o bebê está dormindo, totalmente despreparado para “ser nascido”, e, assim, o nascimento se torna um choque e, ao meu ver, uma agressão. Você quer que o primeiro contato do seu filho amado com o mundo fora de você seja assim, um susto e, possivelmente, um trauma? Não é melhor respeitar o tempo dele e deixar que os abraços (contrações) do seu útero o preparem para nascer, mesmo que seja via abdominal?

4. Amor

Você já ouviu falar na ocitocina? Também conhecido como “o hormônio do amor”, a ocitocina é uma das substâncias responsáveis pela sensação de conexão, confiança e empatia. O orgasmo depende da secreção desse hormônio e a amamentação também, mas a maior concentração sanguínea do hormônio do amor na vida de uma mulher ocorre durante o trabalho de parto. Não é incrível? Estima-se que essa é a razão pela qual mulheres que parem naturalmente alegam sentir uma ligação profunda e imediata com o filho (um amor instantâneo) enquanto muitas mulheres que não tiveram esse privilégio admitem que a amor visceral pelo filho foi construído. Calma – não estou dizendo que quem tem parto normal ama mais o filho, por favor! O amor é muito mais do que simplesmente hormônios – é social, espiritual e um esforço diário – mas passar pelo trabalho de parto e sentir pelo menos uma fração dessas substâncias prazerosas e incríveis circulando pelo corpo deve ser o máximo. E pode tornar o conturbado período pós-parto um pouco mais ameno.

5. Paciência

A paciência é uma virtude que está se perdendo. Hoje em dia tudo é urgente, é “pra agora”, e a pressa é quase universal. Até quando estamos entre compromissos, no trânsito ou no metrô, sentimos uma pressão por estar “produzindo” – checando emails no smartphone, lendo jornal, resolvendo um problema no telefone… (In)Felizmente, um bebê chega para mudar tudo isso. Crianças requerem paciência. Elas têm o próprio ritmo e tempo, e testam nossa paciência constantemente, seja com suas constantes necessidades (mamadas, fraldas, choros) ou no processo natural de aprendizado (já reparou como precisam repetir tudo infinitas vezes?). Portanto, ter a paciência para esperar a hora de seu filho nascer, conforme manda a natureza e a fisiologia, pode ser uma boa forma de se acostumar com sua nova realidade como mãe – uma realidade onde a paciência será imprescindível para a sua felicidade e sanidade.

6. Espírito de aventura

Eu adoro ouvir a história de como nasci. Minha mãe acordou de madrugada toda molhada, sentindo somente “umas cólicas” e achando que tivesse feito xixi na cama. Precisou ser convencida pela sogra de que estava em trabalho de parto e que a bolsa havia rompido. Chegou no hosptial com 8 cm de dilatação e pariu algumas horas depois. Deve ter sido uma aventura e tanto! Pessoalmente, acho triste que a grande maioria das crianças sendo nascidas hoje teve essa primeira aventura “roubada” – e suas mães também! As mães não vão deixar uma plateia inteira na expectativa, com cara de “quero mais”, ao contarem como sentiram as primeiras contrações, a dúvida de estarem ou não em trabalho de parto, a saída do tampão, o frio na barriga ao perceberem que chegou a hora, os telefonemas de madrugada, o taxista/marido nervoso… Elementos de uma verdadeira história de ação! Quando a geração de hoje perguntar como foi seu nascimento, vai ouvir que o parto foi marcado para o dia tal na hora tal e que ponto final. Pode me chamar de romântica, mas eu encaro a vida como uma grande aventura e da mesma forma que não escolhemos o dia da nossa morte, acho que ao escolherem para nós o dia do nascimento, roubamos um pouco da magia de viver. Deixe o seu filho embarcar nessa vida com o espírito de aventura que ele precisará para aproveitar ao máximo sua temporada aqui na terra.

7. Paz

Tem gente que diz que quando nasce um mãe, nasce junto a mãe culpada, sempre se perguntando se está fazendo o certo, cheia de ansiedades sobre a saúde e bem estar do filhote, com mil e uma perguntas para fazer ao pediatra, à sua mãe, às amigas (íntimas e virtuais)… Tudo isso é normal. A insegurança, as dúvidas e os questionamentos fazem parte do processo. Mas o nível pode ser tolerável ou patológico. Quando você adentra a maternidade impondo conveniências alheias ao processo, negando a seu filho o direito de determinar a hora certa para ele, você já começa “brincando com fogo”, mexendo num processo natural e aumentando o risco de ter problemas mais na frente. Você quer acrescentar mais essa culpa? Não é simplesmente mais fácil respeitar a infinita sabedora desse processo milenar e aguardar, paciente e respeitosamente, o dia e a hora que o destino lhe reservou para dar a luz?

Como você pode ver, numa gravidez normal, de um bebê saudável, o melhor mesmo é esperar a hora “P” chegar. Seu médico pode alegar várias coisas – placenta grau 3, feto macrossómico (grande), cordão enrolado, pressão alta (sem pré-eclampsia), cesárea prévia: nada disso é indicação de cesárea, muito menos de cesárea agendada. Exceto em casos de pré-eclampsia, placenta prévia, placenta abrupta e outras (poucas) ocorrências emergenciais, qualquer cesárea pode ser feita durante o trabalho de parto, com melhores resultados para a saúde do bebê. Enfim, esperar o trabalho de parto é muito mais do que “simplesemente” mais seguro. É sinônimo das virtudes acima: saúde, ética, respeito, amor, paciência, espírito de aventura e paz.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Relato de Parto Normal com Cesariana Prévia

Desejo de coração que minha experiência sirva de incentivo para outras mulheres lutarem por seu direito de parir naturalmente. O parto pra mim foi uma experiência incrível, um marco na minha vida como mulher.

Eu sinto que a gravidez do Carlos Eduardo começou quando nasceu minha primeira filha. Na ida pro centro cirúrgico eu já pensei que da próxima vez eu conseguiria ir até o final. Pra quem não sabe o resumo da minha cesária foi, bolsa rota, indução, 10hrs de TP punk, dessas horas 3 foram estacionadas em 8cm. Segundo o médico rolou distócia de rotação, minha filha entrou em sofrimento e eu fui pra faca.

(Hoje sei que se tivesse ficado em casa esperando entrar em TP, não teria ido pra ocitocina de cara, não teria passado por tantas intervenções e teria muito mais chances de nãot er sofrido uma cesária)

Assim que pude comecei a ler tudo que podia sobre partos normais após cesariana, já tinha lido antes, mas superficialmente porque achei que nunca ia precisar saber mais sobre o assunto. Minha segunda gravidez foi planejada como a primeira e acredito que foi planejada na minha mente parte por parte pra que nada saísse errado. Eu sou daquelas que acha q se pensar e planejar tudo tim tim por tim tim a coisa sai como eu quero, nem sempre, mas na maioria das vezes acontece.

Parei o anticoncepcional em dezembro e mestruei pela última vez início de fevereiro. Tive uma gravidez tranquila como a primeira, pressão sempre boa, enjoei um bocado no início, cuidei pra não engordar, ao todo foram 7 ou 8 quilos. Passou tão rápido que as vezes acho que nem curti tudo direito. Quando fiz a morfológica com 22 semanas, vi um bebê perfeito e lindamente sentado como um Buda! Senti um frio na espinha e pensei: Putz! Só o que me falta ele ficar sentado até o fim. Mas desencanei, afinal era muito cedo.

Com 31 semanas fiz uma nova ultra e lá estava meu bebê sentado, aí nao rolou frio na espinha, foi um medo pavoroso mesmo. Já comecei a ler tudo que podia sobre bbs pélvicos e o que podia fazer pro menino virar. Desabafei com amigas queridas e todas me disseram que tinha muito tempo ainda pra ele virar, mas eu sou teimosa e a sensação de que eu tinha q fazer alguma coisa ecoava na minha cabeça.
A GO q acompanhou o pré natal disse q ainda tinha tempo, mas ressaltou q se tivesse q ser cesariana não era nenhum bicho de sete cabeças, juro q pensei em argumentar, falar q a cesaria pra mim foi traumática, mas sabia q ia gastar meu latim e calei.

Comecei a fazer exercícios pro bebê virar, atirava pra todos os lados e com 33 semanas fiz uma ultra achando q ele tinha virado. Que nada! Tava sentadão. E ainda ouvi do ultrassonografista q ele não virava mais pq tava muito grande. Quase bati no cara. Saí frustrada, com medo, angustiada. Novamente tive amigas queridas q me apararam (não cito nomes pq certamente serei injusta deixando de citar alguém), chorei pra minha doula, mas não desisti, sabia q tinha tempo. Por via das dúvidas combinei com um médico humanizado uma VEC (Versão externa cefálica). Continuei os exercícios e fazia muita massagem na barriga. Muitas vezes achei q estava amassando o bebê de tanto que eu alisava a barriga a fim de induzir a rotação dele. Senti um giro e no segundo dia senti q ele mexia diferente, mas não acreditei q tivesse virado, eu já tinha me enganado antes. Continuei os exercícios e tudo mais e no outro dia voltei a sentir a cabeça dele embaixo do meu estÔmago. Passei o dia pensando q eu o tinha feito sentar novamente.

Cheguei em casa, tomei banho, entupi a barriga de creme e fiquei fazer circulos na direção horária até me cansar, deixei o quadril bem alto e senti uma pressão próximo ao osso do quadril. Pensei na hora: Ele virou. Aí jurei q não fazia mais nada e fosse o que tivesse que ser. Eu estava com 34 semanas e 4 dias.

Na mesma semana fui na GO e não comentei nada sobre minha ansiedade dele virar e qdo ela me examinou e disse q a cabecinha dele tava lá embaixo eu quase tive um treco. Ali tive certeza de que ia dar certo. Só não sabia q eu teria que passar por algumas coisas antes disso.

Com 37 semanas fiz uma ultra a pedido da GO e o resultado foi: Bebê ótimo, mas com perímetro cefálico um pouco acima do normal, indicava como 34,6 cm e o normal era até 33,9 e duas circulares de cordão. É lógico que eu sabia que circular de cordão não indicava nada, mas o tamanho da cabeça me abalou. Mesmo ouvindo q tava tudo bem eu surtei um pouco achando q o bb teria algum problema e pior, q eu tinha causado de tanto empurrar o guri na barriga!hehehe

Fui pra casa um trapo. Depois fui levar o laudo na GO e ouvi tudo que não queria ouvir de uma vez só. Olhando meu ultrassom ela disse que não aconselhava o PN, mas q tb não era preciso marcar cesária, eu podia esperar o TP pq até tinha uma chance de dar certo, mas que tinhamos q ficar de olho. Que eu era muito "zen", mas neste caso tinha q ter mais cuidado porque haviam fatores que complicavam. Os fatores era absurdos, mas vou listar:

-Trabalho de parto longo q resultou numa cesáriana mesmo eu dilatando bem. (Detalhe, eu só fui até 8 de dilatação e a causa da cesária não foi Desproporção Céfalo-Pélvica).

-Cesária recente. (1 ano e 10 meses)

- Bebê grande e cabeçudo. (Estimativa de peso com 40 semanas era entre 3,5kg e 4kg)

- As benditas circulares de cordão. (Segundo ela se não fossem preocupantes a ultrassonografista nem colocaria no laudo)

Ela falou trocentas vezes que podia tentar o PN, mas q não devia ficar muitas horas em trabalho de parto e que se ficassem insistindo muito no PN eu devia ligar pra ela e ela pediria a cesariana. Por fim, ela foi me examinar e como gran finale disse que minha pélvis era estreita. Isso tudo com olhar de terror, como se algo estivesse muito errado e ela não quisesse me assustar!

Saí do consultório com um ódio mortal dela. Eu não conseguia acreditar que tinha ouvido tanta coisa contrariando evidências científicas como ouvi em uma única consulta. Desabafei com amigas e selecionei informações pra passar pra família. O resumo da consulta foi: Tá tudo bem, é só esperar nascer!

Depois de chorar um monte e passar meu aniversário cheia de medos, enfiei na minha cabeça que eu era perfeita, que era super saudável e que meu bebê estava ótimo e que isso garantia boa parte do processo e que o início da minha vitória era acreditar nela.

Não fui na consulta de pré-natal com 38 semanas e na de 39 também. Organizei na minha mente que caso sentisse algo estranho, ou o bebê diminuísse os movimentos eu iria no posto de saúde, mas que na GO eu só ia em última instância.

Eu sabia q ele nasceria antes das 40 semanas.

Dia 3 de manhã acordei sentindo umas contrações doloridinhas. Bem irregulares, mas diferentes da contrações de BH, lembro q ainda na cama pensei: Tá chegando a hora!

Tinha muitas coisas pra fazer naquele dia e fiz todas.

Eu tive contrações irregulares durante a segunda o dia todo. As 1:59 da manhã a bolsa estourou, mas acredito que o rompimento foi alto e o Caê tampava a saída, pq a água foi saindo aos poucos.

Avisei a Re, meus tios que queriam rezar por mim e fui terminar de arrumar as bolsas pq eu não tinha terminado. Botei roupa na secadora, passei umas roupas do bebê, depois resolvi deitar um pouco, mas aí meu marido já tinha acordado e eu tava elétrica.

As 4 e pouco liguei pra Re com contrações de 5 em 5 e liguei pra Gabi (a doula). Voltei pra bola, fiz chapinha no cabelo pq na minha mente bizarra eu não iria mais molhar o cabelo e tb não pretendia lavá-lo na maternidade. A Re e a Gabi chegaram pouco depois das 5, conversamos um pouco e como minha sala tava meio tumultuada e minha filha acordada, sugeri que fossemos pro meu quarto, curti algumas contrações de joelhos no chão, Senti uma queimaçãozinha na região da cicatriz da cesária, comentei coma Gabi e ela disse que provavelmente era a cabeça do bebÊ fazendo o
giro. Lembro de cuidar muito com a posição da minha coluna, tinha lido que quanto mais curvada para tras, mais demorava pro bebê descer, então eu tentava manter a coluna reta. As dores foram aumetando, então pedi pra ir pra banheira. Minhas contrações vinham de 3 em 3 minutos e nos intervalos dava pra conversar numa boa.

A Gabi me falou que eu podia ficar tranquila, que se o bebê nascesse ali ela dava conta, nessa hora confesso que deu uma vontadezinha de ganhar em casa, mas aí lembrei do meu marido e em como o surto seria enorme se isso acontecesse. As contrações iam ficando cada vez mais fortes e eu viajava em cada uma delas, em uma lembro q me dobrei tanto na banheira que quase fiquei com a cara dentro da água (foi-se a chapinha!hehehe). Não lembro bem quanto tempo fiquei dentro da água, mas lembro que comecei a sentir vontade de empurrar, nessa hora pensei em ir pro hospital e avisei as meninas, a Re imediatamente falou que era bom eu ter certeza de que era vontade mesmo de empurrar e pediu pra esperar mais algumas contrações, esperei mais um tempo até que achei que a dor tava aumentando e a vontade de empurrar também.

Saí da banheira, me vesti e desci. Lembro que vi minha avó com cara assustada e meu marido (super tranquilo) com a minha filha. Eu estava tão fora de mim que tinha esquecido de avisar a Gabi que ela me levaria ao hospital, na hora de sair de casa era eu olhando perdida pro marido, ele me olhando estranho, minha avó assustada e minha filha gritando por mim, pra arrematar tive uma contração, acocorei e minha filha desatou a gritar. Fui pro carro aos prantos por deixar minha pequena chorando sem entender nada. Ela estava acordada desde madrugada, estava agitada, certamente sentindo as emoções do momento.

7:00
Ter contrações no carro era bem chato, porque eu não tinha posição pra aliviar as dores, o que dava pra fazer era rebolar. Mal saí de casa reclamei de fome e a Gabi tinha castanhas na bolsa, comi duas e desisti. Abri os olhos poucas vezes, só pra me situar em que ponto do trajeto eu estava. Quando chegamos na cabeceira da ponte que liga ilha ao continente assustei pq tinha muito tráfego. Ficava repetindo que tudo ia dar certo, que ele nasceria bem e de parto normal.

7:30am
Entrei no hospital andando e bem em frente a recepção tive uma contração, me apoiei na parede e só lembro de um homem correndo com uma cadeira de rodas, depois quando abri os olhos novamente já estava em uma pequena sala de triagem. O enfermeiro ajudou a tirar minha roupa e a me deitar na cama pra ser examinada. Eu só pensava que tinha que estar dilatada, meu medo era estar com dores fortes e pouca dilatação. A médica antes de examinar fez algumas perguntas e assim que perguntou como foi o primeiro parto e eu disse que tinha sido cesária eu falei: Mas eu quero parto normal!!
Ela respondeu que iam tentar. Foi a única hora que fiquei brava, afinal, quem "iam" tentar? Eu que ia parir, eu que tinha que dilatar. Pois bem, abri as pernas angustiada, queria saber se tava dilatada ou nao e eis que ouço: Olha o cabelinho!

Eu só não pulei de alegria porque minhas condições físicas impediam, afinal, se dava pra ver cabelinho era sinal de que tava bem dilatada. A médica enfim falou que eu estava com 7cm de dilatação.
Continuei deitada na cama enquanto me faziam perguntas e a Gabi fazia minha internação. Essa hora foi confusa porque eu não tava afim de responder nada, a Re respondia por mim e era podada por quem perguntava. A triagem acabou e me transferiram pra sala de pré-parto. Cheguei lá e um enfermeira obstétrica muito gentil se apresentou e fez um toque.

Acho que já estava com 8cm. A partir desse momento não lembro de mais nada com riqueza de detalhes, fiquei a maior parte do tempo de olhos fechados e quase dormia nos intervalos das contrações. Veio uma moça preencher mais um papel e fazia as mesmas perguntas que eu já tinha respondido, aí minha boa educação já tava longe e eu respondia quase aos berros e dizia que já tinha respondido tudo aquilo. Lembro que pouco depois me examinaram novamente e já estava com quase 9cm, aí me mandaram sentar na bola embaixo do chuveiro. Fiquei lá um tempo e ajudou muito a aliviar as contrações. As vezes eu ouvia a voz da Re do outro lado do box me dizendo pra respirar.

Essa coisa de respirar é muito estranha, porque li bastante sobre como respirar de forma a ajudar a aliviar as dores, mas na hora da dor, respirar direito exigia uma concentração fenomenal e por vezes parecia que não dava pra respirar, só empurrar. Lembro que embaixo do chuveiro eu só queria empurrar, e mesmo que eu tentasse não fazer o corpo não respondia. Aí comecei a falar bem alto que queria empurrar. Outra coisa que me surpreendi comigo mesma é que eu não poupei garganta, na hora da dor eu gemia alto, é como se eu jogasse a dor pra fora.

Me tiraram do chuveiro e voltei pra cama, a médica apareceu, fez toque, 10 cm! Me preparei a gravidez inteira pra ouvir isso. Bem, a médica me falou que eu podia empurrar quando quisesse, que eu que comandava o processo. Fiquei ainda mais confiante e a cada contração eu empurrava com gosto, afinal, a dor não era mortal, mas queria que acabasse logo. Não sei quanto tempo fiquei empurrando, a médica repetia que eu estava indo muito bem, que estava tudo indo rápido e quem dera se todas chegassem no hospital como eu. Por fim ela disse que tava na hora de ir pra
sala de parto. Me ajudaram a sair da cama e me encaminharam pra sala...errada! Acabei tendo uma contração no corredor. Deve ter sido uma cena ilária, eu gemendo alto de dor, meio acocorada, empurrando e a enfermeira com a mão no meio das minhas pernas me falando pra não empurrar. A contração passou e eu entrei na sala certa, sentei na sonhada cadeira para parto de cócoras e comecei a fazer força. Não sei quantas vezes empurrei até que resolvi perguntar se faltava muito, a médica respondeu que mais três contrações nascia. Pensei que três era um número muito grande e na próxima contração fiz toda a força que podia e que não podia, senti o círculo de fogo e a cabeça saindo.

9:36am

A médica pediu que eu parasse de empurrar, aí ouvi ela dizendo: uma circular, duas circulares. Outra contração chegou e o corpo saiu. Vi meu pequeno chorando forte e em seguida foi colocado em meu peito. Lindo, perfeito e preguiçoso, não quis mamar, mas ficou um tempo quietinho sobre mim e eu ali ainda sem acreditar que tinha dado certo. Me veio tanta coisa na cabeça, me senti meio fora do corpo, como se estivesse vendo acontecer sem ser comigo. A Re feliz do meu lado. Levaram o bebê pra examinar e a Re foi junto, a placenta saiu e eu curiosa fiquei observando. Cordão enorme. PEguntei como tava a placenta e disseram que tava ótima e a enfermeira ainda perguntou se eu queria fazer alguma coisa com ela e como eu nem tinha pensado em nada, falei que não.

A médica então me avisou que tive uma laceração de segundo grau e que ela ia suturar. Fiquei lá deitada, pensando em tudo, exausta, com fome, mas feliz.
A sutura pareceu durar uma eternidade, até fiquei perguntando quantos mil pontos eu tinha levado, mas por ser ponto contínuo demorou mais tempo.
Quando terminou e foram me passar pra maca, levantei o corpo e caí deitada novamente. Desmaiei por uns segundos.

Quando percebi tinha enfermeira em cima medindo pressão, me chamando, perguntando como eu estava. Pressão 7 por 9.

Fiquei um tempinho ainda deitada, me passaram pra maca e me deram oxigênio e soro. A Re chegou com o Caê e fomos esperar liberarem o quarto.

Aí começou uma nova etapa, a do pós parto. Era enfermeira em cima perguntando se eu estava melhor, falando como o Caê era bonito e grande, como tudo tinha sido rápido. Fiquei revivendo tudo com a Re, comentando tudo. Amamentando meu filho e feliz da vida porque conquistei algo que desejei tanto, com tanta força.
Fiquei pouco mais de 24 hras no hospital, mas não esqueço de uma reunião que teve com a enfermeira chefe e outras mães que tinham acabado de parir. Cada uma contou um pouco da sua experiência, do que esperava do parto e depois de eu ter falado ouvi a enfermeira dizer a todos como eu tinha seguido um bom caminho, que tinha me preparado pro momento e que tinha sido protagonista do meu parto.

Meu relato não ficou dos melhores, porque muita coisa eu não lembro direito, eu deixei minha mente desligar de tudo na hora, mas espero que sintam um pouquinho da minha alegria.

Agradeço a Deus, a minha família que sempre torceu por este VBAC (parto vaginal após cesariana), à minha amiga querida Regina, que lutou comigo, me incentivando, me dando livros, a Ana Mafalda por ser meu porto seguro, por me dar puxões de orelha quando precisei e a todas as minhas amigas radicais que me ajudaram, apoiaram, contaram suas experiências e confiaram em mim.

Não sei se terei um terceiro filho, mas se tiver, quero passar por tudo isso novamente.