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sábado, 26 de março de 2016

Relato de parto: Lucas da Silva Baptista


Na última roda a que a Jaqueline veio estavam presentes também a Rafaela e a Cláudia, ambas com 36 semanas. A Jaque, com suas 29, era, em teoria, a que mais ia demorar a ver o filhote fora da barriga. Mas se tem uma coisa que a gente aprende nessa vida de doula é que a única certeza do processo é não ter certeza de nada.

Aí na tarde do dia 21 de março, meu primo Vinícius (marido da Jaqueline) me ligou para dizer que ela estava com muita dor de cabeça. Era um dia bem quente, então recomendei água e descanso e, se não melhorasse em cerca de 1 hora, ir para o médico porque poderia ser pressão alta (até então ela não tinha tido nenhum episódio de pressão acima do normal). Não melhorou, e ela foi até o hospital São Francisco. A pressão, de fato, estava alta, e os exames apresentaram alterações importantes - presença de proteína na urina e alteração no doppler. O médico recomendou internação, mas disse que não havia vagas lá. Esse tipo de situação, pra quem não sabe, é muito comum, não é a primeira vez que acompanho uma gestante desesperada com alterações sérias nos exames sem ter onde se internar por falta de vagas.

Decidimos ir para o HRT, onde, mesmo que não houvesse vagas, tínhamos certeza de que ela seria medicada. Chegando lá, a médica disse que tentariam estabilizar a pressão e, caso não desse certo, seria necessário fazer uma cesariana, apesar da prematuridade do bebê (29 semanas, peso estimado em 800g). Ela ficou internada no próprio Centro Obstétrico.

Foram 3 dias de medicação para tentar controlar a pressão e corticoides para ajudar no amadurecimento do feto. Porém a pressão continuava descontrolada e a quantidade de proteína na urina aumentou em vez de diminuir. Sendo assim, o risco de vida para a Jaqueline foi considerado alto demais para tentar manter a gravidez, e no dia 24 de março, às 14h38min, com 35cm e 845g, nasceu o pequeno Lucas da Silva Baptista, prematuro extremo, mas forte: chorou, fez xixi, teve apgar 8/9. Foi colocado na incubadora.

Como não havia vagas na U.T.I. neonatal do HRT, nosso bebezinho foi levado para a U.T.I. neo do Hospital Regional de Santa Maria, onde segue internado. Está com os pulmões limpos, reagindo muito bem, demonstrando toda a força que gostaríamos de ver em um neném tão prematuro. Agora é concentrar nossas orações e energias positivas para que ele não contraia nenhum tipo de infecção e siga ganhando tamanho e peso para poder ir logo para os braços da mãe e depois para a casinha dele.

A conclusão? Coração de doula tem que ser forte, principalmente para doular família! Titia babona apaixonada...! :)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Amor e revolução no nascimento de Ernesto

Cleidinho e Flávia já haviam passado há muito de doulandos para amigos. Conheci a Flavinha num grupo de doulas em que ela procurava uma doula, pois o nascimento do seu primeiro filho, o César, havia sido por uma cesariana mega desnecessária. Encontrei total empatia por parte do casal. Foram muitas rodas, encontros, conversas, até que, quando me dei conta, a amizade já transbordava das questões relativas ao parto e a identificação rolava solta em várias outras áreas das nossas vidas.

Para comprovar minhas palavras, digo que na véspera do parto estávamos nós cinco (meu marido, eu, Cleidson, Flávia e Ernesto) no teatro da Caixa, assistindo a uma peça maravilhosa. Na despedida, minha doulanda queridíssima disse que estava sentindo algumas dores, que qualquer coisa me ligava de madrugada. Estávamos torcendo muito por um nascimento no final de semana, já que Cleidinho e eu somos professores, então tentei não criar expectativas, porque ela já vinha em pródromos há algum tempo, e a maior chance era de ser um alarme falso. Pois é, não era.

Telefone tocou às 2:15 da manhã. Era Cleidinho, dizendo que as contrações estavam ritmadas, de 4 em 4 minutos. Troquei de roupa, catei minha malinha e fui pra lá. Tinha muita gente no apartamento (família de fora de Brasília que tinha vindo para conhecer o bebê quando nascesse e dar apoio ao casal), mas todos dormiam. Flávia estava fazendo um lanche no quarto. As contrações estavam bem tranquilas até, então propus que todos descansássemos o máximo possível. Apagamos a luz, deitamos e tentamos relaxar, mas a calmaria logo passou, interrompida por um "Ai, meu Deus... Acho que a bolsa estourou...". Tinha estourado, sem dúvida uma rotura baixa: muita água de ensopar o colchão e seguir escorrendo pelas pernas.



A partir daí, as contrações se intensificaram, mas ainda estavam bem suportáveis. Cleidinho e eu nos alternávamos nas pequenas tarefas e na companhia a Flávia. E assim fomos seguindo madrugada adentro, uma noite de muita chuva, até que as contrações começaram a vir a cada 2 minutos e estavam bem longas e intensas, chegando a durar 1'30". Pegamos as coisas, acordamos as avós de Ernesto para um beijo de despedida e seguimos para o HMIB com o dia já claro.

Demoraram muito, muito tempo mesmo para chamar a Flávia para ser examinada. Então, no corredor do hospital, seguimos rebolando, respirando, caminhando. Ela "lutava por cada contração", como ela mesma disse, pois, além do hospital ser um ambiente que não favorece o relaxamento, as pessoas em geral se mostraram de fato inconvenientes, perguntando, interrompendo, passando informações óbvias, desrespeitando as contrações... enfim, "cheios de assunto", kkkkkkk.



Quando passamos pelo exame, Ernesto com os batimentos cardíacos maravilhosos, Flávia com 4 cm de dilatação. Após alguma negociação, conseguimos exercer nosso direito e Cleidson e eu entramos com ela, apesar de o HMIB só autorizar um acompanhante. A felicidade e a paz reinaram nas duas horas seguintes à internação. Vários pequenos milagres estavam fazendo com que tudo transcorresse exatamente do modo como sonháramos que seria. As contrações da Flávia se intensificaram com o ambiente mais favorável, e ela começou a se queixar da dor e do cansaço.

Um novo exame de toque mostrou que a contração não havia progredido e que Ernesto estava muito alto. Então embora a Flávia estivesse mais querendo descansar, seguimos a sugestão da médica, caminhando e agachando de tempos em tempos. Mais duas horas se seguiram nesses exercícios, nesse parto super ativo. Flavinha demonstrava sinais de cansaço, mas ainda reclamava muito pouco e conseguia rir e brincar durante as contrações.

No exame seguinte, Ernesto seguia firme e forte, desceu um pouco e a dilatação evoluiu para 5-6cm. Comemoramos a vitória. A médica disse, entretanto, que ele ainda tinha que descer bastante, disse que passássemos as duas horas seguintes exercitando na bola. Mandei mensagem para minhas doulandas dando notícias sobre o parto e elas ficaram um pouco preocupadas, porque já eram 14h, ou seja, 12 horas de trabalho de parto. Pedi pra tirarmos uma foto com cara de "olha como parir é fácil" e Flávia ganhou o prêmio parturiente artista do ano, olha que carinha mais de boa:



Aí deu-se o momento mais tenso de todo o nosso trabalho de parto. Até então, só nos deparamos com anjos. Toda a equipe muito carinhosa, simpática, humanizada e respeitando os desejos do casal, um cenário idílico mesmo. Mas a médica que veio então pareceu um trator. Já chegou reclamando, nos destratando a cada pergunta, dizendo que só estava fazendo um favor para a outra médica, quase me expulsando do quarto quando falei que era a doula. Auscultou os batimentos cardíacos do bebê, que continuavam super bem, e fez um exame de toque, saiu resmungando que nada tinha mudado e que teríamos que escolher entre ocitocina e cesariana. Cleidinho ficou transtornado. Exigiu acesso ao prontuário e à discussão quanto aos procedimentos, negou a ocitocina. Quando a médica disse que ele teria que se responsabilizar por não seguir a conduta indicada por ela, simplesmente respondeu: "Me diga onde eu assino". Todos estávamos muito tensos. Eu tentando apaziguar os ânimos, mas, no fundo, muito cheia de orgulho desse meu amigo, um companheiro e pai consciente, lutando para defender os direitos da companheira e do seu filho.

No meio de todo esse estresse, chegou mais um anjo, creio que o mais iluminado de todos. Lissandra. Até roubei uma fotinho do site da equipe de parto domiciliar dela, Nascentia, para colocar aqui. Vê se não é iluminada, essa mulher?



Ela chegou com o maior carinho, acalmou o Cleidson, disse para não nos preocuparmos porque nada nos seria imposto. Verificou que as contrações da Flávia não estavam mesmo tão eficazes quanto poderiam estar, mas se dispôs a negociar as opções que tínhamos. Ela se assegurou de que a médica anterior não mais nos atenderia, e conversou com a médica seguinte. Nos mostrou alguns pontos de acupuntura para estimular as contrações e combinou de esperarmos mais uma hora e, se a dilatação não mudasse, colocarmos ocitocina.

Depois do tempo combinado, a dilatação não evoluiu além do que já estava, coisa de 7cm. O horário do plantão delas estava no fim e elas disseram que certamente a equipe seguinte encaminharia a Flávia para uma cesariana e que, por isso, colocar a ocitocina seria nossa melhor chance de ter o nascimento via vaginal. Cleidson e Flávia toparam, mas consegui ver o pânico nos olhos da Flavinha. Afinal, eu já havia dito várias vezes que a ocitocina intensifica demais as contrações, causando muito mais dor. A essa altura, ela já estava muito cansada do prolongado trabalho de parto, já quase no limite. Conversando, expliquei que a vantagem da ocitocina era justamente abreviar o trabalho de parto e que, naquele cenário, eu concordava ser nossa melhor opção.

Aí o bicho pegou, né?! Contrações "pacabá" com qualquer mulher.



A essa altura a Flávia já estava pálida, mole, triste. Durante as contrações, gritava, arfava; entre elas chorava. Fazia força. Realmente achei que ela estava no período expulsivo, pelas posições que adotava e pela força que fazia, além de várias vezes dizer que queria fazer o número 2. Não chamamos ninguém e deixamos ela fazer força, na esperança de que Ernesto nascesse sem a intervenção da equipe.

Coisa de uma hora depois, a médica veio examinar: ela continuava com os mesmos 7cm, embora Ernesto tivesse descido. Eram 21h, já. A Flávia já não tinha mais forças para nada, estava física e emocionalmente exausta. A médica sugeriu então a cesariana, que foi prontamente acatada por ela, pelo Cleidson e com a qual concordei plenamente. Todos havíamos chegado ao nosso limite e se eu, que era só a doula, estava exausta, imagina a Flávia? Não havia a menor condição de ela continuar passando por aquele nível de contração até dilatar mais 3cm e o bebê nascer. Com o coração tranquilo por termos feito tudo o que podíamos, aceitei o inevitável, embora, claro, tenha ficado um pouco triste porque queria muito ver a Flávia tendo a experiência do expulsivo.

Aí, cara, é aquela coisa da cesariana, né?! Tudo tão rápido que a gente mal consegue processar... Levaram-na para o centro cirúrgico tão rápido que eu sequer consegui dizer tchau. Sentei no corredor, cansada, pensando em quanto tempo levaria até que nos víssemos de novo. De repente me chega Cleidinho, furioso, com toda razão, porque não o deixaram assistir ao nascimento. Disseram que em procedimentos cirúrgicos não pode entrar ninguém, nem mesmo o pai do bebê. Ficamos ali, então, naquela agonia, até que trouxeram a notícia de que Ernesto havia nascido e de que tanto ele quanto a Flávia estavam bem. Deixaram Cleidinho entrar e tirar foto, mas logo o botaram pra fora dizendo que ele encontraria a companheira e o bebê na maternidade, duas horas depois.



Nos olhamos, ainda bestas entre frustração, raiva, gratidão, mas principalmente muito, muito, muito amor. Levei ele pra casa dele, então, para que ele pudesse tomar um banho, comer e dar notícias aos familiares antes de voltar para junto dos amados que o esperavam.

Desse processo todo, tirei várias lições valorosas, mas ainda não consigo elaborá-las em palavras. Mesmo esse relato demorou muito mais do que o de costume (Ernesto nasceu dia 06/03) porque eu saí muito mexida, muito tocada, e foi uma sequência de acontecimentos fortes, um parto muito marcante do início ao fim.

A essa família sensacional, que conquistou meu coração de um modo único, meu abraço apertado de doula, minhas lágrimas de felicidade pela chegada de Ernesto, meu carinho e minha amizade, no que depender de mim, para o resto da vida.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Gabriel

Gabriela me ligou por volta das 3h dizendo estar sentindo contrações de 4 em 4 minutos. Não esperávamos o Gabriel para antes do dia 10, inclusive a despedida de barriga dela seria hoje na nossa roda, mas parto normal tem dessas coisas: quem sabe a hora certa de vir melhor do que o bebê? 
Emoticon smile
Como ela ainda não havia completado as 38 semanas, o plano original de ir para a casa de parto foi por água abaixo e ela optou por um hospital particular coberto pelo convênio dela, então combinamos de nos encontrar no Santa Helena. Cheguei lá às 6h, e já comecei com muito estresse: ela havia sido admitida, estava naqueles boxes da emergência e, como a irmã dele estava junto, não quiserem me deixar entrar apesar da lei garantir à mulher o direito e acompanhante E doula. Fiquei então sem nenhuma notícia dela, esperando a ouvidoria abrir para fazer barraco. Após toda a discussão, mil ligações, mil tudo, finalmente consegui entrar.
A Gabi estava com 5cm de dilatação, bem tranquila, dores suportáveis. Logo o marido dela chegou e a irmã foi embora. Ficamos os três num box mega apertado, super desconfortáveis, durante toda a manhã. Perto do meio dia ela foi novamente avaliada e tinha dilatado só mais um centímetro, estava nos 6. Finalmente nos mudaram para o centro cirúrgico onde pelo menos tínhamos bola, cavalinho e espaço. E Gabriela se movimentava bastante, agachava durante as contrações, sempre tranquila, aceitando as dores, apoiada pelo marido. Muita paz.
Só que a dilatação ia evoluindo muito lentamente. Foram três horas para ela chegar aos 7cm, o que a colocou na linha de alerta do partograma. Os médicos estavam muito tranquilos e pacientes, apenas avaliando os batimentos do bebê e a dilatação dilatação cada uma hora, mas sem pressionar em momento algum.
Por volta das 17h, o médico fez nova avaliação e vou que, apesar do bebê estar ok, a dilatação não havia evoluído nada, o que colocava a situação na linha de ação do partograma. Ele nos deixou à vontade para conversar se a opção seria a ocitocina, a cesariana ou uma transferência de hospital. O casal decidiu que a administração da ocitocina seria a melhor das opções e enquanto o médico não voltava Gabi e eu fizemos vários exercícios para favorecer a descida e encaixe do bebê, na esperança de dispensar a ocitocina.
Aí vem a parte interessante: o médico nunca voltou. Chegou a troca de plantão e o novo responsável estava enrolado no consultório, então só às 19:30 (2 horas é meia após a linha de ação, vejam como é importante agir rápido ‪#‎modoironicoon‬) uma médica que fez uma cesariana na sala ao lado da nossa reparou que ele estava há muito tempo sem avaliação e veio ouvir os batimentos e fazer o toque. Como apesar de todos os nossos esforços a dilatação continuava nos 7cm, a Gabriela foi colocada na ocitocina.
Juro que escorreu uma lágrima de pena na primeira contração pós ocitocina: a Gabriela quase virou do avesso com tanta dor. Caiu de joelhos no chão, chorou, gritou... muito ruim... então diminuíram o gotejamento do soro, que é o correto, e as contrações continuaram vindo muito fortes, muito doloridas.
O médico que assumiu o plantão veio cerca de uma hora depois para avaliar e logo eu soube que o parto não iria acontecer. Dentre as frases que me passaram essa informação estão: "esse bebê não vai morrer no meu plantão" e "ao menor indício, por menor que seja, que o bebê pode vir a ficar numa situação desconfortável, nós vamos para a cesariana". Muito grosseiro, visivelmente irritado com minha presença como doula. Mas o bebê estava bem, a dilatação havia evoluído para 8-9 cm e ele concordou em continuar acompanhando, o que me deu esperança. Eram cerca de 21h.
Gabriela e Sirlei, exemplos e força, tranquilidade e de não se deixarem abater pelo cansaço, continuaram andando pelo quarto, agachando, rebolando, com uma disposição invejável. O médico retornou por volta das 22h, fez o toque e disse que ia indicar a cesariana porque o bebê estava com a cabeça em forma de cone, o que indicava que não ia ter passagem, e que ele não nasceria de jeito nenhum. Eu fiquei arrasada porque eu sei que isso é uma grande MENTIRA. A cabeça em forma de cone é algo que acontece com TODO BEBÊ que nasce de parto normal, e volta ao normal após algumas horas ou no máximo uns 2 dias após o parto.
Gabriela foi para a cesariana e eu fiquei, literalmente, chorando do lado e fora, porque apesar de saber como é bom para a mãe e o bebê todo o processo do trabalho e parto, de saber o valor de cada contração para a saúde do bebê, aquele desfecho era muito injusto para uma mulher tão forte.
Porém, durante a cirurgia, o médico viu que a placenta estava descolada (provavelmente devido às contrações violentas que só a ocitocina sintetica é capaz de proporcionar) me consolou, porque as chances de ela terminar numa cesariana de qualquer forma eram bastante altas. Na minha opinião, o médico indicou cesárea por motivos falsos mas acabou acertando sem querer, tanto que colocou como causa da cesariana o descolamento de placenta e não a cabeça em forma de cone....
Gabriel nasceu às 22:46, com 3.285kg, com os olhos da mãe e com a covinha na bochecha do pai. Nasceu forte e muito saudável, sem sustos.
Na minha opinião de doula, a dilatação difícil da Gabriela tem relação direta com o ambiente hospitalar. Ela nunca havia tomado qualquer remédio na veia ou sido internada, porém tanto o pai quanto a mãe morreram hospitalizados e ela visivelmente ficou traumatizada em relação a procedimentos médicos. Se o hospital é naturalmente um ambiente hostil, que associamos a doença, e que tende a dar uma travada no trabalho de parto, imagina em um caso como o dela? Ela mesma no fundo sempre soube disso, porque desde o início estava convicta de querer parir na casa de parto.
Enfim, minha gente... a ocitocina se fez necessária pela progressão lenta, a cesárea se fez necessária pelo descolamento da placenta e apesar de não ser o desfecho que queríamos, foi uma cirurgia tranquila, mãe mãe bebê estão ótimos e meu coração de doula está tranquilo.
Gabriel, bem vindo a esse mundo doido. Sirlei, Gabriela, vocês são um casal maravilhoso! Muito orgulho de vocês e dessa nova família!

Estela

Hoje nossa equipe reverencia a força e a perseverança da nossa querida Ana Paula. Ela teve uma cesariana que não conseguiu aceitar por não ter convicção de que fosse necessária e, por isso, na segunda gestação, decidiu empenhar-se ainda mais. Poucas mulheres que cruzaram meu caminho eram tão bem informadas, decididas, preparadas para parir.
Só que as forças do universo nem sempre conspiram a favor dos nossos planos. Estela não deu sinais de querer nascer antes das 42 semanas. E a nossa diva Ana foi firme até o fim. O meio termo que ela encontrou com a médica foi a indução, a qual tive a tristeza de acompanhar. Tristeza porque logo no início a pressão da Ana subiu e não diminuía com a medicação, o que fez a médica indicar a cesariana. Ainda assim, ela não estava convencida e pediu para que a ocitocina fosse retirada e ela ficasse em observação. A médica se recusou, se irritou. Foi um cabo de guerra, médica, enfermeira, técnicas em enfermagem, todo mundo pressionando para que a cesariana fosse feita naquele momento. A Ana já não conseguia pensar, muito menos decidir, só conseguia sentir o quanto não queria aquela cirurgia.
Pedi que todo mundo saísse e me desse 10 minutos com ela. Dei colo, respiramos juntas, procurando um pouco de paz e tranquilidade para que ela pudesse decidir o que fazer. Depois desse tempo, ela sentiu muito claramente que deveria ir embora. Então pediu a alta à revelia, e foi pra casa descansar, absorver, se recuperar. A médica então disse que não poderia mais acompanhá-la, a enfermeira também disse o mesmo.
Imagino o quanto essa noite deve ter sido difícil para ela! Quantas lágrimas, quantos medos...! Porém fico muito feliz de ela ter tido esse tempo para absorver e lidar com a iminência de uma cirurgia, e não ter sido empurrada para ela sem entender nada, como no nascimento da Alice.
Ontem, então, veio a última tentativa dela. Foi ao HMIB, dessa vez com o coração disposto a aceitar qualquer que fosse a decisão médica. Ainda assim, não foi fácil - ela discutiu com praticamente todos os médicos do hospital. Mas a indicação da cesariana foi unânime entre eles e, assim, às 18:04 do dia 27/09, nasceu Estela, com 50cm e 3,140kg.
Incrível como ter filhos, da concepção ao final da vida deles, é tudo sobre perder o controle. Mas é muito difícil quando nosso parto não é como a gente espera. E é complicado para as pessoas entenderem como uma mulher pode estar triste apesar de ter acabado de receber seu filho. Mas a verdade é que a tristeza pelo parto perdido se separa bem da alegria por ter uma criança. Não é preciso sentir uma coisa ou outra, os dois sentimentos podem, sim, conviver. E a elaboração desses sentimentos leva mesmo um tempo.
A você, Ana, minha gratidão por ter me permitido ser parte desse sonho. Estarei com você também na elaboração desse sentimento, tanto quanto você me permitir.
(Elisa Costa)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ALERTA DE POST MEGA SUPER ULTRA IMPORTANTE!!!!


Hey, gravidinhas e gravidinhos do meu Brasil! O post de hoje é essencial para quem não quer cair no conto do vigário da desneCESÁREA, ou seja, fazer uma cesárea sem que haja real necessidade para isso. Vou colocar aqui para vocês um post do blog "estuda, Melânia, estuda", da médica Melânia Amorim, uma excelente obstetra que trabalha há anos com parto humanizado. Temos, então, uma lista bem completa de indicações REAIS de cesariana, ou seja, casos em que ela é de fato necessária; POSSÍVEIS indicações, ou seja, quando a cesárea pode ser necessária e como ela é usada como desculpa às vezes; DESCULPAS ESFARRAPADAS que os médicos comumente usam para fazer cesárea, mas que não são indicações reais. Leiam mil vezes!
INDICAÇÕES REAIS E FICTÍCIAS PARA A CESÁREA
Algumas indicações de cesariana
REAIS
1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;
2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;
3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);
4) Apresentação córmica (situação transversa) - durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);
5) Ruptura de vasa praevia;
6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto (em algumas diretrizes, somente se for a primoinfecção herpética).
PODEM ACONTECER, PORÉM FREQUENTEMENTE SÃO DIAGNOSTICADAS DE FORMA EQUIVOCADA
1) Desproporção cefalopélvica (DCP): o diagnóstico só é possível intraparto e não pode ser antecipado durante a gravidez. Em 1934 um obstetra (Barbour) já dizia que "o melhor pelvímetro é a cabeça fetal", e é avaliando a progressão da cabeça fetal através do canal de parto na presença de contrações eficientes que pode ser aventada a suspeita de DCP;
2) Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é "frequência cardíaca fetal não-tranquilizadora", exatamente para evitar diagnósticos equivocados baseados tão-somente em padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal);
3) Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais (correção da hipoatividade uterina, amniotomia): recentemente tanto autores como diretrizes concordam que os critérios devem ser mais elásticos. O próprio uso de ocitocina e a amniotomia não têm efetividade comprovada quando comparados com a conduta expectante;
Pela grande variação do que é fisiológico, considera-se que não é necessário intervir para apressar um parto, independente de sua duração, quando mãe e bebê estão bem.
Nota: o uso do partograma de Friedman é altamente questionável. A curva de evolução do trabalho de parto tem grande variação, recomendando-se atualmente a curva de Zhang (2010), com percentis. Outras curvas em outras populações estão sendo estudadas.
SITUAÇÕES ESPECIAIS EM QUE A CONDUTA DEVE SER INDIVIDUALIZADA, CONSIDERANDO-SE AS PECULIARIDADES DE CADA CASO E AS EXPECTATIVAS DA GESTANTE, APÓS INFORMAÇÃO
1) Apresentação pélvica (recomenda-se oferecer versão cefálica externa depois de 36 semanas mas se não for bem sucedida ou não for aceita pela gestante, discutir riscos e benefícios: o parto pélvico só deve ser tentado com equipe experiente e se for essa a decisão da gestante);
2) Duas ou mais cesáreas anteriores (o risco potencial de uma ruptura uterina – variando de 0,5% - 1% - deve ser pesado contra os riscos de se repetir a cesariana, que variam desde lesão vesical até hemorragia, infecção e maior chance de histerectomia); as diretrizes mais recentes não discriminam entre uma ou duas cesáreas para quem quer tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean = Parto Vaginal Após Cesárea);
3) hiv/aids (cesariana eletiva indicada se HIV + com contagem de CD4 baixa ou desconhecida e/ou carga viral acima de 1.000 cópias ou desconhecida); em franco trabalho de parto e na presença de ruptura de membranas, individualizar casos.
Algumas desculpas utilizadas pelos profissionais para realizar uma DESNEcesárea (em ordem alfabética)
1. Abdominoplastia prévia
2. Aceleração dos batimentos fetais
3. Adolescência
4. Ameaça de chuva/temporal na cidade
5. Anemia falciforme
6. Ameaça de parto prematuro (?)
7. Anemia ferropriva
8. Anemia de qualquer tipo (entendam, gestantes, a cesariana vai agravar a anemia, uma vez que a perda sanguínea é cerca de 500ml no parto normal e 1.000ml na cesariana)
9. Anencefalia
10. Anticoagulação (uso de warfarin que já deveria estar suspenso a termo, uso de heparina de baixo peso molecular, uso de heparina convencional)
11. Artéria umbilical única
12. Asma
13. Assalto ou outras formas de violência (gestante ou familiar foi vítima de assalto, então o bebê pode ficar estressado)
14. Acidente Vascular Cerebral (AVC) prévio
15. Bacia "muito estreita"
16. Baixa estatura materna
17. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso
18. Bebê alto, não encaixado antes do início do trabalho de parto
19. Bebê profundamente encaixado
20. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
21. Bebê "grande demais" (macrossomia fetal só é diagnosticada se o peso é maior ou igual que 4kg e não indica cesariana, salvo nos casos de diabetes materno com estimativa de peso fetal maior que 4,5kg. Não se justifica ultrassonografia a termo em gestantes de baixo risco para avaliação do peso fetal).
22. Bebê "pequeno demais"
23. Bebê engolindo o líquido amniótico
24. Bebê flagrado apertando o cordão durante a ultrassonografia, o que aparentemente levou a bradicardia
25. Bilhete ou telefonema do prefeito/secretário de saúde de município próximo – Bilhete de qualquer político
26. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe)
27. Calcificação da sínfise púbica (alegando-se que ocorreria em TODAS as mulheres com mais de 35 anos, impedindo o parto normal)
28. Candidíase
29. Cardiopatia (o melhor parto para a maioria das cardiopatas é o vaginal)
30. Cegueira materna
31. Ceratocone
32. Cesárea anterior
33. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma
34. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultrassonografistas e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso)
35. Cirurgia gastrointestinal prévia
36. Colestase gravídica
37. Coleta de sangue do cordão umbilical para congelamento e preservação de células-tronco
38. Colo grosso, colo posterior, colo duro, colo alto e (paradoxalmente) colo curto
39. Colostomia (sim, porque é melhor fazer uma incisão abdominal perto do estoma com fezes do que um parto normal bem distante da área...)
40. Conização prévia do colo uterino
41. Condilomas (verrugas genitais) que não provocam obstrução do canal de parto.
42. Constipação (prisão de ventre)
43. Cordão curto (impossível a mensuração antes do nascimento)
44. Cálculo renal (nefrolitíase)
45. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas (incluindo aniversário do obstetra)
46. Datas significativas como 11/11/11 ou 12/12/12 (ainda bem que a partir de 2013 precisaremos esperar o próximo século mas ainda inventam outras...)
47. Diabetes mellitus clínico ou gestacional
48. Diagnóstico de desproporção cefalopélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto e antes da dilatação de 8 a 10 cm
49. Disfunção da sínfise púbica
50. Dorso à direita, dorso posterior, ou dorso em qualquer outro lugar
51. Edema de membros inferiores/edema generalizado
52. Eletrocauterização prévia do colo uterino
53. Endometriose em qualquer grau e localização
54. Enxaqueca materna
55. Epilepsia e uso de qualquer droga antiepiléptica
56. Escoliose
57. Espondilite anquilosante – Qualquer espondiloartropatia
58. Estreptococo do Grupo B (EGB) no rastreamento com cultura anovaginal entre 35-37 semanas
59. Exérese prévia de pólipos intestinais por colonoscopia
60. Falta de dilatação antes do trabalho de parto
61. Falta de vagas nos hospitais se a gestante não marcar a cesárea
62. Feto com “unhas compridas”
63. Feto morto
64. Fibromialgia
65. Fratura de cóccix em algum momento da vida
66. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come)
67. Gestação gemelar com os dois conceptos, ou o primeiro, em apresentação cefálica
68. Gestante saudável demais, correndo o risco de ter um parto fácil e muito rápido, podendo parir antes de chegar ao hospital, com risco de morte do bebê
69. Gravidez não desejada
70. Gravidez prolongada
71. Grumos no líquido amniótico
72. Hemorroidas
73. Hepatite B e Hepatite C
74. Hérnia de disco, operada ou não, em qualquer segmento da coluna vertebral
75. Hérnia inguinal, hérnia incisional e hérnia umbilical
76. Hiperprolactinemia
77. Hipertireoidismo
78. Hipotireoidismo
79. História de cesárea na família
80. História de câncer de mama ou câncer de mama na gravidez
81. História de depressão pós-parto
82. História de natimorto ou óbito neonatal em gravidez anterior
83. História de trombose venosa profunda
84. História familiar de fibrose cística do pâncreas
85. HPV com ou sem NIC
86. Idade materna “avançada” (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral refere-se às mulheres com mais de 35 anos. Há pouco tempo a fisioterapeuta que faz parte de nossa equipe foi considerada "idosa"por um plantonista de certa maternidade que não me convém indicar...
87. Incisura nas artérias uterinas (pesquisada inutilmente, uma vez que não se deve realizar oplervelocimetria em uma gravidez normal)
88. Incontinência urinária de esforço ou estar fazendo muito xixi no final da gravidez
89. Infecção urinária
90. Inseminação artificial, FIV, qualquer procedimento de fertilização assistida (pela ideia de que bebês “superdesejados” teriam melhor prognóstico com a cesárea) – motivo pelo qual esses bebês aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal
91. Insuficiência istmocervical (paradoxalmente, mulheres que têm partos muito fáceis são submetidas a cesarianas eletivas com 37 semanas SEM retirada dos pontos da circlagem)
92. Insuficiência Renal Aguda ou Crônica
93. Jogo do Atlético x Cruzeiro (mas pode substituir por Flamengo x Fluminense, Grêmio x Internacional ou qualquer clássico de sua cidade), afetando o tráfego urbano
94. Laparotomia prévia
95. Lesão medular (habitualmente acarretando paralisia: tetraplegia, paraplegia, hemiplegia, diplegia, dependendo do nível da lesão): essas mulheres em geral são cadeirantes e podem ter partos sem dor, mas o diagnóstico não é indicação de cesárea!
96. Líquido amniótico em excesso
97. Lúpus eritematoso sistêmico (LES)
98. Magreza da mãe
99.Malformação cardíaca fetal
100. Mecônio no líquido amniótico (só indica cesariana se houver associação com padrões anômalos de frequência cardíaca fetal, sugerindo sofrimento fetal)
101. Mioma uterino (exceto se funcionar como tumor prévio)
102. Miscigenação racial (pelo “elevado risco” de desproporção céfalo-pélvica)
103. Neoplasia intraepitelial cervical (NIC)
104. Nó verdadeiro de cordão (impossível o diagnóstico antenatal, sorry)
105. Obesidade materna
106. Paciente “não tem perfil para parto normal”
107. Paciente “não ajuda para o parto normal” (momento vidente ON: “no fundo ela quer cesárea”)
108. Parto “prolongado” ou período expulsivo “prolongado” (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra). O diagnóstico deve se apoiar no partograma. O próprio ACOG só reconhece período expulsivo prolongado mais de duas horas em primíparas e uma hora em multíparas sem analgesia ou mais de três horas em primíparas e duas horas em multíparas com analgesia. Na curva de Zhang o percentil 95 é de 3,6 horas para primíparas e 2,8 horas para multíparas)
109. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas)
110. Perineoplastia anterior
111. Pé (do feto) nas costelas
112. Pé torto congênito
113. Placenta grau III ou II ou I ou qualquer outra classificação placentária
114. Placentas baixas não oclusivas do colo do útero
115. Plaquetopenia
116. Pólipos uterinos
117. Possível falta de vaga em maternidade para um parto normal, caso a gestante não marque a cesárea
118. Pouco líquido no exame ultrassonográfico (sem indicação no final da gravidez em gestantes normais)
119. Praticar musculação ou ser atleta
120. Pressão alta
121. Pressão baixa
122. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia, grande miopia, ceratocone e descolamento da retina
123. Profissão professora
124. Prolapso de valva mitral
125. Prótese total de quadril
126. Prurido gestacional
127. Qualquer malformação fetal incompatível com a vida
128. Qualquer procedimento cirúrgico durante a gravidez
129. Queloide ou tendência a queloide podendo complicar uma episiotomia (e a cesárea não? E para que fazer episiotomia?)
130. Reação vasovagal
131. Sedentarismo
132. Septo uterino/cirurgia prévia para ressecção de septo por via histeroscópica
133. Ser bailarina
134. Sono fetal (bebê que dorme durante o trabalho de parto)
135. Suspeita ecográfica de mecônio no líquido amniótico
136. Síndrome de Down e qualquer outra cromossomopatia
137. Síndrome de Ovários Policísticos (SOP)
138. Tabagismo
139. Trabalho de parto prematuro
140. Trânsito urbano muito intenso
141. Tricomoníase
142. Trombofilias
143. Trombose venosa profunda
144. Varizes uterinas
145. Varizes em membros inferiores
146. Varizes na vulva
147. Uso de antidepressivos ou antipsicóticos
148. Uso de aspirina e outros antiagregantes plaquetários (ex.: clopidogrel)
149. Útero bicorno
150. Útero retrovertido
151. Vaginose bacteriana
152. Varizes na vulva e/ou vagina
153. Violência urbana, impedindo obstetra (famoso) de sair de casa à noite ou alegada como pretexto para que as gestantes também não sigam o perigoso percurso até a maternidade
Nota: infelizmente isto não é piada. Agradeço a contribuição das gestantes, dos colegas, dos médicos residentes e dos políticos que me mandam bilhetinhos estapafúrdios indicando cesarianas por motivos os mais exóticos, e recentemente a Gisele Leal que compilou mais indicações informadas pelas mulheres dos grupos do Facebook.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Uau, galera! Quanta polêmica essa resolução governamental que estimula o parto normal está gerando, hein?! 
Para começar, é preciso compreender que a cesariana é uma cirurgia. Muitos já devem ter ouvido que não existe cirurgia sem risco, e essa é uma verdade que aprendi muito dolorosamente. Não existe cirurgia simples. Fazer uma cesárea implica em anestesia, sete camadas do corpo feminino cortadas, cerca de 75 pontos dados. Se essa cirurgia for feita sem que a mulher esteja em trabalho de parto, não há como saber se, de fato, os pulmões do bebê estão maduros, o que aumenta muito o risco de complicações ao nascer e de que a criança precise ficar em UTI neonatal. O risco do parto cirúrgico é bem maior para mãe e filho do que em um parto normal. É por isso que a Organização Mundial de Saúde estabelece que as cesarianas girem em torno de 10% do total dos partos, porque essa é a porcentagem de mulheres que efetivamente tem alguma complicação no parto e precisam ser operadas e fim de não morrerem, nem elas nem seus bebês.
No Brasil, as taxas de cesariana estão muito, muito acima disso. Os planos de saúde, então, giram em torno dos 90%. A maioria dos obstetras que atendem por convênio nem lembram mais como é acompanhar um parto normal, porque realmente só fazem cesáreas. Será que todas essas mães operadas por seus médicos para terem seus filhos tiveram alguma intercorrência que tornasse a cirurgia necessária? Será que, então, tiveram toda a informação sobre as duas vias de parto e escolheram, conscientemente, a cirurgia? A ANS entendeu que não. A ANS entendeu que os médicos estão manipulando suas pacientes de modo a confortavelmente encaixarem o nascimento de seus filhos para não haver choque entre agendas, para não terem que ficar à disposição, para não terem que esperar a progressão do trabalho de parto. A ANS entendeu que esse índice de 90% das cesarianas indica que mulheres estão sendo operadas desnecessariamente.
O que diz a resolução???
1) Os planos de saúde terão que fornecer à mulher o cartão da gestante, onde ficará registrado todo o pré-natal.
2) A mulher que quiser uma cesariana terá que assinar um termo de consentimento que lista todos os riscos da cirurgia. Sim, ela pode escolher agendar uma cesárea em vez de entrar em trabalho de parto, apenas ela terá que declarar que sabe todos os riscos a que está se expondo e expondo seu bebê. Não vejo nenhum absurdo nisso!
3) O médico terá preencher, no trabalho de parto, um documento chamado PARTOGRAMA. O partograma é uma representação gráfica dos eventos do trabalho de parto, onde são registrados os sinais vitais do feto, dilatação cervical, duração do trabalho de parto, etc. Esse registro vai sendo feito ao longo da permanência da mulher no hospital (ou ao longo do trabalho de parto em casa) e permite determinar se o trabalho de parto está ou não evoluindo conforme o esperado. Esse registro impossibilita que o médico decida, aos 4cm de dilatação da mulher, que ela “não vai dilatar”, a não ser que os valores no partograma mostrem que realmente a dilatação está muito fora do esperado. Impossibilita que o médico diga que a grávida tem que fazer uma cesárea “de emergência” agendada para 9h do sábado seguinte. Impossibilita que o médico marque a cesárea porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço. Ou seja, vai ficar bem mais difícil para eles enganarem as mulheres que planejaram ter seu filho num parto normal. Nos casos muito urgentes em que o partograma não possa ser preenchido, o médico poderá apresentar um relatório médico detalhado, ou seja, ninguém vai morrer porque o médico ficou ocupado preenchendo o partograma.
Comemoro muito a entrada em vigor dessa resolução, porque no mínimo está incitando o debate e a informação, além de pressionar os médicos a permitirem que a mulher exerça realmente seu direito de escolha quanto ao parto. Contudo, os prováveis efeitos dessa resolução ainda me intrigam. Tenho medo dos primeiros partos que esse médico que sempre fez cesárea vai acompanhar. Porque é algo em que a maioria dos médicos não tem mais segurança! São tantos anos operando que eu acredito que eles ficarão assustados com a possibilidade de algo acontecer e venham com a “cascata” de intervenções (ocitocina, analgesia, episiotomia, etc.) para tentar se precaver de qualquer incidente. Mas, ao mesmo tempo, tenho fé de que o caminho da humanização do parto comece a se abrir para mais médicos, para o bem de mulheres e bebês!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Relato de parto: Vanessa e Letícia - visão da doula

A Vanessa me ligou por volta das 5h da manhã, contando que sua bolsa havia rompido. Por volta das 7h, as contrações já estavam bem doloridas, e fui para a casa dela. Chegando lá, achei que ela estava muito abatida, e tinha razão: os vômitos foram super intensos e ela não conseguia comer. Ao longo do dia. César e eu tentamos de tudo: suco, chocolate, castanha, pão, mel... Mas nada parava no estômago da Vanessa, à exceção de pequenos goles de água ou chá.
Às 9h, seguimos para o consultório do dr. Marcondes. Ela foi avaliada e a dilatação estava em 1cm, com o colo ainda grosso, rígido. Vanessa fez um cardiotoco e já então manifestou o desejo de fazer uma cesariana, pois as contrações estavam doloridas demais. César e eu conversamos bastante, com todo carinho, e combinamos de ir para a casa de uma amiga da Vanessa que ficava bem pertinho do Santa Luzia [Martita, nem te conheço, mas já te considero pacas! Que refúgio foi a sua casa em um dia tão tumultuado!].
Na casa da amiga, Vanessa conseguiu relaxar, dormir um pouco, e já acordou com outra feição. Comeu um pouco de açaí e estávamos conversando quando o doutor Marcondes ligou, porque havíamos ficado de retornar ao meio-dia para nova avaliação e já eram quase 13h.
Embora o colo estivesse mais fino e maleável, a dilatação não havia progredido nada e a Vanessa, muito calma e muito segura, disse que queria partir para uma cesariana. Não se tratava de uma mulher em fase de transição, na famosa hora da covardia, querendo desistir quando o trabalho de parto estava quase no final. O trabalho de parto dela ainda estava no início, ela estava muito segura e tranquila quando decidiu que não queria mais. E aí, doula? Você acompanha, nesse caso? É CLARO QUE SIM! Ela é quem sabe a intensidade das dores que estava sentindo, os limites dela, o cansaço, a fraqueza... A decisão é dela, o corpo é dela! Nossa, então ela sentiu dor à toa? É CLARO QUE NÃO! A Vanessa pôde ter a certeza de que sua filha estava pronta para nascer (certeza que só é possível ter com o trabalho de parto) e as duas passaram por várias contrações, o que permitiu um maior amadurecimento dos pulmões da Letícia e todo um coquetel de ocitocina que ambas receberam.
Dr. Marcondes então encaminhou para a cesariana. Estávamos com bastante bagagem, então me permiti não acompanhar a cirurgia (já que eles nunca deixam a gente ficar com a mulher no momento em que eu mais gostaria, que é depois que o bebê nasce e é levado para os procedimentos) e alguém precisava receber e abrir o quarto, achei que seria mais útil do lado de fora, hehe.
Assim, às 15h20, com 50cm e 2,540kg, nasceu a linda diva Letícia. Segundo o médico, a posição dela não estava favorável, então tudo indica que seria um trabalho de parto longo e dificil. Estive com Vanessa logo no pós-parto, segurei a pequena no colo, conversamos muito sobre todo o processo. Saí com o coração tranquilo e feliz!


Taxas de cesariana nas maternidades de Brasília



Parir nessa cidade não é fácil. Disso a gente já sabia. Os hospitais particulares são campeões de cesarianas. Disso a gente também já sabia. Mas seguem abaixo as taxas de cesariana (que segundo a Organização Mundial de Saúde devem girar em torno de 15%) dos principais hospitais de Brasília. Se você está na vibe "parir com o plantonista", é bom observar bem.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Nascimento do João! =]


E porque coração de grávida tem que ser muito forte e estar sempre cheio de afeto, quando cheguei em casa ontem, da cesariana da Raquel (post anterior) lembrei que a Mônica tinha consulta às 9h e mandei mensagem perguntando como tinha sido. Ela estava completamente zonza com o resultado de seu ultrassom: 2,4 de líquido amniótico (repetido três vezes pela médica e revisado pelo chefe da médica) e constatação de baixa vitalidade fetal.
A Mônica, dentre as minhas doulandas, foi uma das mais presentes e mais bem preparadas para o parto normal. Por ter uma cesárea anterior que foi bem traumática física e psicologicamente, ela estava firmemente decidida a entrar em trabalho de parto, leu muito, frequentou várias rodas e estava pronta para peitar todo um sistema obstétrico para conseguir entrar em trabalho de parto e parir. Ela estava firmemente decidida a não se deixar enganar e cair em uma cesárea sem necessidade.
Só que aí está o detalhe, né?! Existem situações em que só podemos agradecer ao universo a existência dos médicos e da cesariana, e essa era uma dessas. A indicação de cirurgia era correta e real. Claro que de início foi bem difícil para a Mônica - e para mim, confesso) lidar com a frustração de um plano tão bem delimitado. Trabalhei bastante em mim primeiro, depois fui para a casa dela. Lá, fiz uma massagem e conversamos bem, sobre como planejamos o parto normal exatamente pensando no melhor para o João, e que se o melhor para o João não é mais o parto normal, temos que aceitar com alegria. Orientei a ela que conversasse com o anestesia sobre as reações ruins que ela teve da última vez.
Como a irmã dela é enfermeira e o marido já ia acompanhá-la, achei por bem não ir ao hospital tentar entrar, e deixar esse privilégio para a irmã dela, que acompanhou tudo e me mandou fotos. No horário da cirurgia, convoquei todas as doulandas para orarmos e mandarmos vibrações positivas para que a Mônica não se sentisse triste nem sozinha após a cesariana, na recuperação. E dormi tranquila sabendo que mãe e bebê estavam ótimos e que João era lindo!
Hoje, fui visitá-la. Estava bem, bonita, amamentando, tranquila. Fiquei muito, muito orgulhosa da Mônica. E ainda ganhei presentes! O melhor deles foi uma foto dela grávida, com os dizeres: "Obrigada por fazer parte da luta pelo empoderamento e protagonismo da mulher no parto". Fiquei profundamente emocionada e grata por ter feito parte desse processo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Nascimento de Alice, filha de Raquel, neta de Júlia

Raquel me mandou mensagem na segunda-feira cedinho, dizendo que estava com contrações desde 2h da manhã, com dores fortes, mas suportáveis, e sem perda de líquido. Ela mora em Santo Antônio do Descoberto e eu em Águas Claras, mas fiquei preocupada por ser a primeira vez que ela entrava em trabalho de parto, quis tranquilizar a família e ensinar a ela como lidar com as contrações. Então tomei um banho, café da manhã, deixei meu filho na escola e fui encontrá-la.
Chegando lá, a casa estava cheia. Marido, duas irmãs, sobrinha, logo chegou a mãe também. Conversei com ela, acompanhei algumas contrações, ensinei aos acompanhantes como aliviar a dor, tranquilizei a família. Vi que as contrações estavam bem irregulares, então deixei Raquel nas boas mãos da família e fui buscar meu filho, almoçar e descansar um pouco.
Voltei para a casa da Raquel lá pelas 15h. As contrações continuavam irregulares e a casa continuava cheia. As contrações estavam bem mais doloridas, então fiz bastante massagem para aliviar e, quando ela estava mais tranquila, saímos para caminhar. Durante toda a caminhada, com direito a parada para agachamentos no parquinho, as contrações param totalmente. Quando voltamos para casa e o corpo dela esfriou, elas começaram a vir fortes e entrando em um ritmo de uma a cada 6, 7 minutos, mais doloridas. Achei que o trabalho de parto fosse engrenar ali, mas elas perderam o ritmo.
Já eram umas 19h quando chamei Raquel e o marido no quarto, apaguei a luz, coloquei uma música e deixei os dois namorando e ela com a missão de rebolar e agachar pra ver se as contrações engrenavam. Ela logo se queixou de cansaço e sono, então falei para ela deitar e descansar, e tive a sensação de que não seria aquele o dia do nascimento da Alice. Ela foi deitar, mas não ficou meia hora deitada e foi pro banho. No meu entendimento, era hora de ela descansar e poupar energia para o parto, sossegar. Mas a família estava começando a ficar visivelmente tensa e com medo de algo estar errado. Reuni todos na sala para explicar que ela não estava ainda em trabalho de parto ativo, que eram apenas os pródromos, e que aquele estado podia durar muitos dias. Orientei a, caso eles se sentissem inseguros, que fossem ao posto de Santo Antônio mesmo para que o médico ouvisse os batimentos cardíacos do bebê e fui para casa descansar.
Pouco depois, ela me mandou mensagem dizendo que estava indo para o Hospital da Samambaia. Aí começou o circo de horrores... No hospital da Samambaia, não queriam atendê-la porque o pré-natal tinha sido eito na Ceilândia. Insisti muito e eles a avaliaram. Ela estava cm 1cm de dilatação apenas. Ela ficou desesperada, mesmo eu explicando que no primeiro parto a dilatação demora mais porque primeiro o colo do útero tem que apagar para depois dilatar. A madrugada em claro e a falta de sono durante o dia começaram a pesar. Eram cerca de 23h quando ela decidiu ir para o Hospital de Ceilândia, para onde ela não queria ir, mas concluiu que seria a única opção. Falei que seria melhor ela ir para casa e esperar pelo menos até a manhã seguinte, descansar, mas ela estava mesmo muito nervosa e decidiu tentar ser atendida no HRC e pedir a cesárea, que imaginei que seria feita por ela já estar com 41+3 semanas.
No Hospital da Ceilândia, um daqueles espécimes de "profissional" que faz a gente temer pelo futuro dos seres humanos. Um médico tosquíssimo, que não deixou ela entrar acompanhada, que fez um toque brutal dizendo "Tava com 1 cm? Peraí! (forçando a abertura na marra) Agora tá com três!". Ela gritou de dor com o 'toque' cruel, e ouviu "Cala essa boca! Levanta da maca e senta naquela cadeira! Rápido!". O resto de tranquilidade e sanidade que a Raquel tinha a abandonou nesse momento e ela chorava muito. Resolveu que naquele hospital, com aquele médico, ela não ficaria mais e foi para o HMIB. Lá, o médico queria induzir o parto. Já estava quase amanhecendo, 28 horas com contrações e segunda noite sem dormir, ela implorou por uma cesariana, mas não a ouviram, dizendo que ela "ainda aguentava muito".
Ela decidiu, então, fazer um sacrifício nada pequeno e pagar pela realização de uma cesariana em um hospital particular. Foi, então, internada e, às 9h25min, nasceu Alice, com 51cm e 3.865kg. Forte, gordinha, linda demais da conta. Mãe e filha passam bem, Raquel provavelmente dormirá o resto do dia de tão exausta.
E a doula aqui, vai passar o dia digerindo, sabe?! Tentando digerir esse sistema que maltrata, que humilha, que rebaixa a mulher num momento tão importante. Tentando entender o medo que as pessoas têm do parto e a necessidade de estar em um hospital. Tentando absorver a quantidade de procedimentos cruéis e desnecessários que é feita num recém-nascido. Tentando compreender porque esses procedimentos não podem ser feitos ao lado da mãe, por que essa criança é levada para outra sala. Tentando aceitar que, por risco de infecção, assim que o bebê nasce a mulher não pode mais ter um acompanhante ao seu lado. Tentando crer que toda vez que eu, como doula, quiser ver um bebê de doulanda minha nascer vou ter que implorar e aceitar pacificamente ser deixada de lado na hora que aquela mulher mais precisa do meu apoio. A doula está aqui de estômago embrulhado, percebendo claramente como são duros os limites de sua profissão.

domingo, 2 de agosto de 2015

Indicações reais, possíveis e fictícias de cesarianas

ALERTA DE POST MEGA SUPER ULTRA IMPORTANTE!!!!
Hey, gravidinhas e gravidinhos do meu Brasil! O post de hoje é essencial para quem não quer cair no conto do vigário da desneCESÁREA, ou seja, fazer uma cesárea sem que haja real necessidade para isso. Vou colocar aqui para vocês um post do blog "estuda, Melânia, estuda", da médica Melânia Amorim, uma excelente obstetra que trabalha há anos com parto humanizado. Temos, então, uma lista bem completa de indicações REAIS de cesariana, ou seja, casos em que ela é de fato necessária; POSSÍVEIS indicações, ou seja, quando a cesárea pode ser necessária e como ela é usada como desculpa às vezes; DESCULPAS ESFARRAPADAS que os médicos comumente usam para fazer cesárea, mas que não são indicações reais. Leiam mil vezes!
INDICAÇÕES REAIS E FICTÍCIAS PARA A CESÁREA
Algumas indicações de cesariana
REAIS
1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;
2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;
3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);
4) Apresentação córmica (situação transversa) - durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);
5) Ruptura de vasa praevia;
6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto (em algumas diretrizes, somente se for a primoinfecção herpética).
PODEM ACONTECER, PORÉM FREQUENTEMENTE SÃO DIAGNOSTICADAS DE FORMA EQUIVOCADA
1) Desproporção cefalopélvica (DCP): o diagnóstico só é possível intraparto e não pode ser antecipado durante a gravidez. Em 1934 um obstetra (Barbour) já dizia que "o melhor pelvímetro é a cabeça fetal", e é avaliando a progressão da cabeça fetal através do canal de parto na presença de contrações eficientes que pode ser aventada a suspeita de DCP;
2) Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é "frequência cardíaca fetal não-tranquilizadora", exatamente para evitar diagnósticos equivocados baseados tão-somente em padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal);
3) Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais (correção da hipoatividade uterina, amniotomia): recentemente tanto autores como diretrizes concordam que os critérios devem ser mais elásticos. O próprio uso de ocitocina e a amniotomia não têm efetividade comprovada quando comparados com a conduta expectante;
Pela grande variação do que é fisiológico, considera-se que não é necessário intervir para apressar um parto, independente de sua duração, quando mãe e bebê estão bem.
Nota: o uso do partograma de Friedman é altamente questionável. A curva de evolução do trabalho de parto tem grande variação, recomendando-se atualmente a curva de Zhang (2010), com percentis. Outras curvas em outras populações estão sendo estudadas.
SITUAÇÕES ESPECIAIS EM QUE A CONDUTA DEVE SER INDIVIDUALIZADA, CONSIDERANDO-SE AS PECULIARIDADES DE CADA CASO E AS EXPECTATIVAS DA GESTANTE, APÓS INFORMAÇÃO
1) Apresentação pélvica (recomenda-se oferecer versão cefálica externa depois de 36 semanas mas se não for bem sucedida ou não for aceita pela gestante, discutir riscos e benefícios: o parto pélvico só deve ser tentado com equipe experiente e se for essa a decisão da gestante);
2) Duas ou mais cesáreas anteriores (o risco potencial de uma ruptura uterina – variando de 0,5% - 1% - deve ser pesado contra os riscos de se repetir a cesariana, que variam desde lesão vesical até hemorragia, infecção e maior chance de histerectomia); as diretrizes mais recentes não discriminam entre uma ou duas cesáreas para quem quer tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean = Parto Vaginal Após Cesárea);
3) hiv/aids (cesariana eletiva indicada se HIV + com contagem de CD4 baixa ou desconhecida e/ou carga viral acima de 1.000 cópias ou desconhecida); em franco trabalho de parto e na presença de ruptura de membranas, individualizar casos.
Algumas desculpas utilizadas pelos profissionais para realizar uma DESNEcesárea (em ordem alfabética)
1. Abdominoplastia prévia
2. Aceleração dos batimentos fetais
3. Adolescência
4. Ameaça de chuva/temporal na cidade
5. Anemia falciforme
6. Ameaça de parto prematuro (?)
7. Anemia ferropriva
8. Anemia de qualquer tipo (entendam, gestantes, a cesariana vai agravar a anemia, uma vez que a perda sanguínea é cerca de 500ml no parto normal e 1.000ml na cesariana)
9. Anencefalia
10. Anticoagulação (uso de warfarin que já deveria estar suspenso a termo, uso de heparina de baixo peso molecular, uso de heparina convencional)
11. Artéria umbilical única
12. Asma
13. Assalto ou outras formas de violência (gestante ou familiar foi vítima de assalto, então o bebê pode ficar estressado)
14. Acidente Vascular Cerebral (AVC) prévio
15. Bacia "muito estreita"
16. Baixa estatura materna
17. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso
18. Bebê alto, não encaixado antes do início do trabalho de parto
19. Bebê profundamente encaixado
20. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
21. Bebê "grande demais" (macrossomia fetal só é diagnosticada se o peso é maior ou igual que 4kg e não indica cesariana, salvo nos casos de diabetes materno com estimativa de peso fetal maior que 4,5kg. Não se justifica ultrassonografia a termo em gestantes de baixo risco para avaliação do peso fetal).
22. Bebê "pequeno demais"
23. Bebê engolindo o líquido amniótico
24. Bebê flagrado apertando o cordão durante a ultrassonografia, o que aparentemente levou a bradicardia
25. Bilhete ou telefonema do prefeito/secretário de saúde de município próximo – Bilhete de qualquer político
26. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe)
27. Calcificação da sínfise púbica (alegando-se que ocorreria em TODAS as mulheres com mais de 35 anos, impedindo o parto normal)
28. Candidíase
29. Cardiopatia (o melhor parto para a maioria das cardiopatas é o vaginal)
30. Cegueira materna
31. Ceratocone
32. Cesárea anterior
33. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma
34. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultrassonografistas e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso)
35. Cirurgia gastrointestinal prévia
36. Colestase gravídica
37. Coleta de sangue do cordão umbilical para congelamento e preservação de células-tronco
38. Colo grosso, colo posterior, colo duro, colo alto e (paradoxalmente) colo curto
39. Colostomia (sim, porque é melhor fazer uma incisão abdominal perto do estoma com fezes do que um parto normal bem distante da área...)
40. Conização prévia do colo uterino
41. Condilomas (verrugas genitais) que não provocam obstrução do canal de parto.
42. Constipação (prisão de ventre)
43. Cordão curto (impossível a mensuração antes do nascimento)
44. Cálculo renal (nefrolitíase)
45. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas (incluindo aniversário do obstetra)
46. Datas significativas como 11/11/11 ou 12/12/12 (ainda bem que a partir de 2013 precisaremos esperar o próximo século mas ainda inventam outras...)
47. Diabetes mellitus clínico ou gestacional
48. Diagnóstico de desproporção cefalopélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto e antes da dilatação de 8 a 10 cm
49. Disfunção da sínfise púbica
50. Dorso à direita, dorso posterior, ou dorso em qualquer outro lugar
51. Edema de membros inferiores/edema generalizado
52. Eletrocauterização prévia do colo uterino
53. Endometriose em qualquer grau e localização
54. Enxaqueca materna
55. Epilepsia e uso de qualquer droga antiepiléptica
56. Escoliose
57. Espondilite anquilosante – Qualquer espondiloartropatia
58. Estreptococo do Grupo B (EGB) no rastreamento com cultura anovaginal entre 35-37 semanas
59. Exérese prévia de pólipos intestinais por colonoscopia
60. Falta de dilatação antes do trabalho de parto
61. Falta de vagas nos hospitais se a gestante não marcar a cesárea
62. Feto com “unhas compridas”
63. Feto morto
64. Fibromialgia
65. Fratura de cóccix em algum momento da vida
66. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come)
67. Gestação gemelar com os dois conceptos, ou o primeiro, em apresentação cefálica
68. Gestante saudável demais, correndo o risco de ter um parto fácil e muito rápido, podendo parir antes de chegar ao hospital, com risco de morte do bebê
69. Gravidez não desejada
70. Gravidez prolongada
71. Grumos no líquido amniótico
72. Hemorroidas
73. Hepatite B e Hepatite C
74. Hérnia de disco, operada ou não, em qualquer segmento da coluna vertebral
75. Hérnia inguinal, hérnia incisional e hérnia umbilical
76. Hiperprolactinemia
77. Hipertireoidismo
78. Hipotireoidismo
79. História de cesárea na família
80. História de câncer de mama ou câncer de mama na gravidez
81. História de depressão pós-parto
82. História de natimorto ou óbito neonatal em gravidez anterior
83. História de trombose venosa profunda
84. História familiar de fibrose cística do pâncreas
85. HPV com ou sem NIC
86. Idade materna “avançada” (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral refere-se às mulheres com mais de 35 anos. Há pouco tempo a fisioterapeuta que faz parte de nossa equipe foi considerada "idosa"por um plantonista de certa maternidade que não me convém indicar...
87. Incisura nas artérias uterinas (pesquisada inutilmente, uma vez que não se deve realizar oplervelocimetria em uma gravidez normal)
88. Incontinência urinária de esforço ou estar fazendo muito xixi no final da gravidez
89. Infecção urinária
90. Inseminação artificial, FIV, qualquer procedimento de fertilização assistida (pela ideia de que bebês “superdesejados” teriam melhor prognóstico com a cesárea) – motivo pelo qual esses bebês aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal
91. Insuficiência istmocervical (paradoxalmente, mulheres que têm partos muito fáceis são submetidas a cesarianas eletivas com 37 semanas SEM retirada dos pontos da circlagem)
92. Insuficiência Renal Aguda ou Crônica
93. Jogo do Atlético x Cruzeiro (mas pode substituir por Flamengo x Fluminense, Grêmio x Internacional ou qualquer clássico de sua cidade), afetando o tráfego urbano
94. Laparotomia prévia
95. Lesão medular (habitualmente acarretando paralisia: tetraplegia, paraplegia, hemiplegia, diplegia, dependendo do nível da lesão): essas mulheres em geral são cadeirantes e podem ter partos sem dor, mas o diagnóstico não é indicação de cesárea!
96. Líquido amniótico em excesso
97. Lúpus eritematoso sistêmico (LES)
98. Magreza da mãe
99.Malformação cardíaca fetal
100. Mecônio no líquido amniótico (só indica cesariana se houver associação com padrões anômalos de frequência cardíaca fetal, sugerindo sofrimento fetal)
101. Mioma uterino (exceto se funcionar como tumor prévio)
102. Miscigenação racial (pelo “elevado risco” de desproporção céfalo-pélvica)
103. Neoplasia intraepitelial cervical (NIC)
104. Nó verdadeiro de cordão (impossível o diagnóstico antenatal, sorry)
105. Obesidade materna
106. Paciente “não tem perfil para parto normal”
107. Paciente “não ajuda para o parto normal” (momento vidente ON: “no fundo ela quer cesárea”)
108. Parto “prolongado” ou período expulsivo “prolongado” (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra). O diagnóstico deve se apoiar no partograma. O próprio ACOG só reconhece período expulsivo prolongado mais de duas horas em primíparas e uma hora em multíparas sem analgesia ou mais de três horas em primíparas e duas horas em multíparas com analgesia. Na curva de Zhang o percentil 95 é de 3,6 horas para primíparas e 2,8 horas para multíparas)
109. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas)
110. Perineoplastia anterior
111. Pé (do feto) nas costelas
112. Pé torto congênito
113. Placenta grau III ou II ou I ou qualquer outra classificação placentária
114. Placentas baixas não oclusivas do colo do útero
115. Plaquetopenia
116. Pólipos uterinos
117. Possível falta de vaga em maternidade para um parto normal, caso a gestante não marque a cesárea
118. Pouco líquido no exame ultrassonográfico (sem indicação no final da gravidez em gestantes normais)
119. Praticar musculação ou ser atleta
120. Pressão alta
121. Pressão baixa
122. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia, grande miopia, ceratocone e descolamento da retina
123. Profissão professora
124. Prolapso de valva mitral
125. Prótese total de quadril
126. Prurido gestacional
127. Qualquer malformação fetal incompatível com a vida
128. Qualquer procedimento cirúrgico durante a gravidez
129. Queloide ou tendência a queloide podendo complicar uma episiotomia (e a cesárea não? E para que fazer episiotomia?)
130. Reação vasovagal
131. Sedentarismo
132. Septo uterino/cirurgia prévia para ressecção de septo por via histeroscópica
133. Ser bailarina
134. Sono fetal (bebê que dorme durante o trabalho de parto)
135. Suspeita ecográfica de mecônio no líquido amniótico
136. Síndrome de Down e qualquer outra cromossomopatia
137. Síndrome de Ovários Policísticos (SOP)
138. Tabagismo
139. Trabalho de parto prematuro
140. Trânsito urbano muito intenso
141. Tricomoníase
142. Trombofilias
143. Trombose venosa profunda
144. Varizes uterinas
145. Varizes em membros inferiores
146. Varizes na vulva
147. Uso de antidepressivos ou antipsicóticos
148. Uso de aspirina e outros antiagregantes plaquetários (ex.: clopidogrel)
149. Útero bicorno
150. Útero retrovertido
151. Vaginose bacteriana
152. Varizes na vulva e/ou vagina
153. Violência urbana, impedindo obstetra (famoso) de sair de casa à noite ou alegada como pretexto para que as gestantes também não sigam o perigoso percurso até a maternidade
Nota: infelizmente isto não é piada. Agradeço a contribuição das gestantes, dos colegas, dos médicos residentes e dos políticos que me mandam bilhetinhos estapafúrdios indicando cesarianas por motivos os mais exóticos, e recentemente a Gisele Leal que compilou mais indicações informadas pelas mulheres dos grupos do Facebook.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sete razões para não marcar o seu parto

Retirado de "a maequequeroser.wordpress.com

Compreendo a opção pela cesárea; entendo de onde vem o receio de parir um bebê, sei da falta de informação e de apoio (do médico, da família, da sociedade) ao parto normal e me conformei com a visão vigente de que a via cirúrgica é uma alternativa aceitável. O que não entendo e não vou aceitar nunca é a banalização das cirurgias agendadas sem indicação, às vezes com 36 semanas, como no caso de uma amiga virtual de Facebook, que revelou seu desespero ao saber que sua cunhada, por sugestão do obstetra, havia agendado sua cesária para antes das 37 semanas. Essa criança provavelmente nascerá prematura, precisará passar tempo na UTI neonatal, terá dificuldades iniciando a amamentação, receberá complemento… Enfim, sua vida não terá um começo fácil. O mais triste é que tudo poderia ter sido evitado se seus pais tivessem esperado sua hora de nascer.

Abaixo, ofereço sete motivos para você esperar os primeiros sinais de que o seu bebê esteja pronto para vir ao mundo ao invés de cair no conto do vigário (ou seja, do “lobo cesarista”) e marcar uma cesárea “de emergência” para daqui a uma semana (isso não é emergência – é conveniência, tá?).

1. Saúde

A saúde sempre vem em primeiro lugar, não é mesmo? Toda mãe deseja, antes de mais nada, que o filho seja saudável. Todo obstetra se orgulha em dizer que preza pela saúde do bebê (muitos até usam isso como desculpa para desencorajar o parto normal, o que é uma ignorância e uma covardia sem tamanho, mas isso é outra história). A literatura médica é categórica: cesáreas eletivas feitas antes de completar 39 ou 40 semanas aumentam significativamente (entre 300 e 500%) o risco de problemas de saúde no bebê, especialmente respiratórios (que podem persistir durante toda a infância), mas também de icterícia (que dá ao recém-nascido um aspecto amarelado e está relacionado ao acúmulo de bilirrubina no sangue) e dificuldades para amamentar. Para todo bebê que nasceu “sem sequelas” numa cesárea de 37 semanas (que não é considerado prematuro, mas que poderia ter ido até 40, 41 ou 42 semanas – ou seja, é sim pré-termo), há vários que precisaram de ficar “em observação” por dificuldades respiratórias ou precisaram receber complemento no berçário ou que precisaram de fototerapia por icterícia e achamos isso “normal” porque, infelizmente, a prematuridade tardia (entre 34 e 36 semanas +6 dias) e o a termo precoce (entre 37 e 39 semanas) se tornaram comuns na nossa sociedade. Porém as evidências demonstram algo inconveniente: os males de saúde aumentaram depois que nós começamos a adiantar o nascimento dos nossos filhos. O que me leva, necessariamente, ao próximo ponto.

2. Ética

Clamamos por um mundo com muito mais ética. Demandamos isso dos políticos e dos empresários, mas, por alguma razão, simplesmente acreditamos piamente na ética do nosso médico. De certo modo, faz sentido. Afinal, o médico é alguém que escolheu preservar e proteger a vida e, teoricamente, por uma causa nobre. Fez o milenar juramento hipocrático, onde promete “não causar dano ou mal a alguém”. A verdade, pelo menos na obstetrícia, não é bem assim. A prematuridade iatrogênica (causada pelo procedimento médico e não natural – ou seja, por partos agendados) está aumentando assustadoramente. É por causa dela que os índices de prematuridade são muito maiores nas regiões sul e sudeste (curiosamente, aonde tem mais cesáreas). Infelizmente, a lei do mercado se sobrepôs ao juramento de não fazer mal e muitos médicos (não todos, mas muitos) – para maximizarem seus rendimentos e para não precisarem acordar de madrugada nem deixarem de viajar no feriado – agendam partos na 37a semana, mesmo conhecendo as estatísticas acima. Há uma falta de punição para esse tipo de comportamento e, portanto, cada vez mais profissionais agem desta maneira condenável. Se você acredita na ética e no que é correto, você pode ajudar o seu médico a não desrespeitar o juramento que fez e não concordar em marcar uma cesárea antes da data. E lembre-se: mesmo que 37 semanas não seja considerado prematuro, a não ser que você tenha feito tratamento para engravidar e saiba exatamente o dia em que ovulou e/ou engravidou, a idade gestacional do seu filho é meramente uma estimativa. Uma gestação a termo é 40-42 semanas (somente depois de 42 semanas é que o bebê é considerado pós-termo).

3. Respeito

Como relatei no post O nascimento, do ponto de vista do sujeito, o bebê não é um mero produto do parto, mas um agente ativo. É ele quem envia os sinais para o cérebro da mãe, assim iniciando o trabalho de parto. O anúncio (ao lado) da ONG americana March of Dimes, instituição empenhada em melhorar a saúde materna e infantil, mostra claramente como algumas semanas fazem uma diferença enorme no desenvolvimento do cérebro fetal. Portanto, fica claro que agendar um parto é desrespeitoso à fisiologia do bebê. Sem contar que, muitas vezes, na hora da cirurgia o bebê está dormindo, totalmente despreparado para “ser nascido”, e, assim, o nascimento se torna um choque e, ao meu ver, uma agressão. Você quer que o primeiro contato do seu filho amado com o mundo fora de você seja assim, um susto e, possivelmente, um trauma? Não é melhor respeitar o tempo dele e deixar que os abraços (contrações) do seu útero o preparem para nascer, mesmo que seja via abdominal?

4. Amor

Você já ouviu falar na ocitocina? Também conhecido como “o hormônio do amor”, a ocitocina é uma das substâncias responsáveis pela sensação de conexão, confiança e empatia. O orgasmo depende da secreção desse hormônio e a amamentação também, mas a maior concentração sanguínea do hormônio do amor na vida de uma mulher ocorre durante o trabalho de parto. Não é incrível? Estima-se que essa é a razão pela qual mulheres que parem naturalmente alegam sentir uma ligação profunda e imediata com o filho (um amor instantâneo) enquanto muitas mulheres que não tiveram esse privilégio admitem que a amor visceral pelo filho foi construído. Calma – não estou dizendo que quem tem parto normal ama mais o filho, por favor! O amor é muito mais do que simplesmente hormônios – é social, espiritual e um esforço diário – mas passar pelo trabalho de parto e sentir pelo menos uma fração dessas substâncias prazerosas e incríveis circulando pelo corpo deve ser o máximo. E pode tornar o conturbado período pós-parto um pouco mais ameno.

5. Paciência

A paciência é uma virtude que está se perdendo. Hoje em dia tudo é urgente, é “pra agora”, e a pressa é quase universal. Até quando estamos entre compromissos, no trânsito ou no metrô, sentimos uma pressão por estar “produzindo” – checando emails no smartphone, lendo jornal, resolvendo um problema no telefone… (In)Felizmente, um bebê chega para mudar tudo isso. Crianças requerem paciência. Elas têm o próprio ritmo e tempo, e testam nossa paciência constantemente, seja com suas constantes necessidades (mamadas, fraldas, choros) ou no processo natural de aprendizado (já reparou como precisam repetir tudo infinitas vezes?). Portanto, ter a paciência para esperar a hora de seu filho nascer, conforme manda a natureza e a fisiologia, pode ser uma boa forma de se acostumar com sua nova realidade como mãe – uma realidade onde a paciência será imprescindível para a sua felicidade e sanidade.

6. Espírito de aventura

Eu adoro ouvir a história de como nasci. Minha mãe acordou de madrugada toda molhada, sentindo somente “umas cólicas” e achando que tivesse feito xixi na cama. Precisou ser convencida pela sogra de que estava em trabalho de parto e que a bolsa havia rompido. Chegou no hosptial com 8 cm de dilatação e pariu algumas horas depois. Deve ter sido uma aventura e tanto! Pessoalmente, acho triste que a grande maioria das crianças sendo nascidas hoje teve essa primeira aventura “roubada” – e suas mães também! As mães não vão deixar uma plateia inteira na expectativa, com cara de “quero mais”, ao contarem como sentiram as primeiras contrações, a dúvida de estarem ou não em trabalho de parto, a saída do tampão, o frio na barriga ao perceberem que chegou a hora, os telefonemas de madrugada, o taxista/marido nervoso… Elementos de uma verdadeira história de ação! Quando a geração de hoje perguntar como foi seu nascimento, vai ouvir que o parto foi marcado para o dia tal na hora tal e que ponto final. Pode me chamar de romântica, mas eu encaro a vida como uma grande aventura e da mesma forma que não escolhemos o dia da nossa morte, acho que ao escolherem para nós o dia do nascimento, roubamos um pouco da magia de viver. Deixe o seu filho embarcar nessa vida com o espírito de aventura que ele precisará para aproveitar ao máximo sua temporada aqui na terra.

7. Paz

Tem gente que diz que quando nasce um mãe, nasce junto a mãe culpada, sempre se perguntando se está fazendo o certo, cheia de ansiedades sobre a saúde e bem estar do filhote, com mil e uma perguntas para fazer ao pediatra, à sua mãe, às amigas (íntimas e virtuais)… Tudo isso é normal. A insegurança, as dúvidas e os questionamentos fazem parte do processo. Mas o nível pode ser tolerável ou patológico. Quando você adentra a maternidade impondo conveniências alheias ao processo, negando a seu filho o direito de determinar a hora certa para ele, você já começa “brincando com fogo”, mexendo num processo natural e aumentando o risco de ter problemas mais na frente. Você quer acrescentar mais essa culpa? Não é simplesmente mais fácil respeitar a infinita sabedora desse processo milenar e aguardar, paciente e respeitosamente, o dia e a hora que o destino lhe reservou para dar a luz?

Como você pode ver, numa gravidez normal, de um bebê saudável, o melhor mesmo é esperar a hora “P” chegar. Seu médico pode alegar várias coisas – placenta grau 3, feto macrossómico (grande), cordão enrolado, pressão alta (sem pré-eclampsia), cesárea prévia: nada disso é indicação de cesárea, muito menos de cesárea agendada. Exceto em casos de pré-eclampsia, placenta prévia, placenta abrupta e outras (poucas) ocorrências emergenciais, qualquer cesárea pode ser feita durante o trabalho de parto, com melhores resultados para a saúde do bebê. Enfim, esperar o trabalho de parto é muito mais do que “simplesemente” mais seguro. É sinônimo das virtudes acima: saúde, ética, respeito, amor, paciência, espírito de aventura e paz.